O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em julho de 2025. A insegurança alimentar grave caiu ao menor nível da série histórica do IBGE. São conquistas reais, sustentadas por dados oficiais. Mas o quadro fica bem menos comemorável quando se olha para quem ainda ficou de fora dessa melhora.
O que ainda não melhorou
Mesmo com a queda, o Brasil tinha, em 2024, cerca de 6,5 a 7 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave. É a fome vivida no dia a dia, quando até crianças no domicílio passam a comer menos. Somando os graus leve, moderado e grave, o total sobe para 18,9 milhões de domicílios. É quase um em cada quatro lares do país.
A desigualdade regional que a média nacional esconde
A taxa nacional de 24,2% de domicílios com algum grau de insegurança alimentar mascara uma distância grande entre regiões. Norte (37,7%) e Nordeste (34,8%) seguem muito acima da média. Também têm os piores índices de insegurança alimentar grave do país, 6,3% e 4,8% dos domicílios. Em levantamento anterior, o Pará apareceu como o pior estado, com 20,3% em insegurança moderada ou grave. Sergipe (18,7%) e Amapá (18,6%) vêm logo atrás.
Zona rural pior que zona urbana
A insegurança alimentar atinge 31,3% dos domicílios rurais. Nas cidades, o índice é 23,2%. No grau mais grave, a diferença também persiste. São 4,6% no campo contra 3,0% na cidade. Pesquisadores do IBGE explicam que parte dos domicílios rurais tem renda per capita menor e mais crianças. Mesmo cultivando alimentos, a produção acaba restrita e pouco variada. Não garante quantidade nem qualidade da dieta.
Mulheres, pretos e pardos são maioria entre os afetados
Quase 60% dos domicílios em insegurança alimentar têm mulher como responsável. Entre os casos de insegurança alimentar grave, 56,9% dos responsáveis são pretos ou pardos. É mais que o dobro da proporção entre responsáveis brancos, 24,4%. A escolaridade também pesa. São 65,7% dos domicílios em insegurança alimentar grave com responsável que tem, no máximo, o ensino fundamental completo. Dois em cada três lares com renda per capita de até um salário mínimo estão em algum grau de insegurança alimentar.
Um alerta que ainda não apareceu nas estatísticas de fome
A taxa de desocupação havia caído a 5,6% no trimestre de março a maio de 2026. Voltou a subir para 5,8% no trimestre encerrado em abril. A renda do trabalho é o principal caminho para sair da insegurança alimentar, segundo o próprio IBGE. "Para adquirir alimentos, vai ser através de renda. Essa renda ou vem do trabalho ou de programas assistenciais", resume a pesquisadora Maria Lucia Vieira. Se o desemprego continuar subindo ao longo de 2026, o efeito sobre a próxima leitura de insegurança alimentar ainda não está definido. É um ponto que merece acompanhamento, não uma certeza.
O que dizem pesquisadores fora do governo
Para o geógrafo José Raimundo Ribeiro, da UFABC, sair do mapa da desnutrição crônica não é o mesmo que erradicar a fome como fenômeno social mais amplo. O critério da FAO mede subalimentação média por três anos. Já o pesquisador Lucas de Almeida Moura, da USP, defende que as estratégias que reduziram a fome precisam ser mantidas e aprimoradas. É um alerta de que o resultado depende de política pública contínua. Não é uma conquista automática ou permanente.
A gestão por trás dos números
Wellington Dias, atualmente à frente do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social desde 2023, costuma apresentar a saída do Mapa da Fome como prova de eficiência de sua gestão. Mas o histórico recente da pasta levanta questões que merecem contraponto.
Em 2025, o ministério foi atingido pelo chamado "escândalo das quentinhas", revelado pelo jornal O Globo: um contrato de R$ 5,6 milhões para fornecimento de refeições a populações vulneráveis, suspeito de fraude, que expôs fragilidades no controle de contratos com organizações sociais dentro da própria estrutura que Dias comanda.
O caso rendeu pressão política para sua saída do cargo e chegou a ser usado por adversários do governo para questionar a governança interna do MDS. Além disso, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado precisou convocá-lo formalmente para prestar contas sobre desafios, metas e planejamento da pasta, sinal de que nem tudo estava claro mesmo para parlamentares aliados. Dias também tem sido criticado por concentrar o discurso público em vitórias estatísticas nacionais, como a saída do Mapa da Fome, enquanto minimiza publicamente as fragilidades regionais e a dependência estrutural do resultado em relação ao mercado de trabalho, fator que está fora do controle direto do ministério e que já dá sinais de reversão em 2026.
Reduzir a fome é, sem dúvida, mérito de política pública. Mas um ministro que administra R$ 2,6 bilhões em programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida também precisa ser cobrado pela integridade dos contratos que executa essa política e, nesse ponto, o histórico recente do MDS sob Dias está longe de ser imaculado.
Um novo Brasil com velhos hábitos
O Brasil melhorou. Isso está nos dados. Mas a melhora não chegou igual para todos. Quem mora no Norte e Nordeste, no campo, é mulher, preto ou pardo, ou tem baixa renda e pouca escolaridade, segue desproporcionalmente mais exposto à fome do que a média nacional sugere. E a sustentação desse avanço depende de uma variável que já mostra sinais de reversão em 2026, o mercado de trabalho.