Um relatório da Polícia Federal aponta que o coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins mantinha uma relação próxima com Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, presos durante a Operação Janus, que investiga uma estrutura suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção de policiais e prestação de serviços financeiros para integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC)
Segundo o documento, obtido pelo Metrópoles, Pereira Martins seria "grande amigo" dos dois investigados e teria mantido com eles uma convivência marcada por viagens, festas, jantares e outros encontros. Em um dos trechos, a PF afirma que o coronel "parece abrir portas na corporação PMESP para Cléber e o grupo".
A análise dos investigadores foi baseada em mensagens, áudios, fotografias e documentos extraídos de celulares apreendidos durante as investigações. O relatório também avaliou a possibilidade de pagamentos a oficiais da Polícia Militar, mas informou que, até a conclusão do documento, em novembro de 2024, não havia elementos suficientes para confirmar essa hipótese.
Pereira Martins não foi preso na Operação Janus, não teve a prisão decretada e não aparece entre os acusados de integrar o núcleo financeiro investigado. A PF também não concluiu que o coronel tenha recebido propina ou participado das movimentações financeiras atribuídas ao grupo.
As investigações apontaram, contudo, que a relação entre o oficial e os empresários se estendia por vários anos. Em mensagens analisadas pela PF, Pereira Martins aparece combinando encontros e viagens com os investigados. Em agosto de 2023, por exemplo, ele convidou Cléber para um encontro em um estabelecimento e disse que levaria outros oficiais.
Também foram identificadas conversas relacionadas ao uso de estruturas de lazer da Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOPM). Pereira Martins aparece no site oficial da entidade como diretor de Colônias, função que exerce desde 2025, com mandato previsto até 2029.
Em uma mensagem enviada em 2020, o coronel sugeriu uma viagem a Campos do Jordão e mencionou a possibilidade de utilização da Colônia dos Oficiais. Em outro diálogo, de 2023, Robson perguntou sobre uma reserva na unidade de Boraceia, e Pereira Martins confirmou a disponibilidade.
De acordo com o relatório, as conversas indicam que o coronel facilitava o acesso dos amigos às colônias. A PF, no entanto, não afirmou que as reservas tenham sido feitas de maneira irregular e também não informou quem teria arcado com os custos das hospedagens.
A proximidade entre o coronel e os investigados também aparece em registros fotográficos. Imagens analisadas pela reportagem mostram Pereira Martins ao lado de Cléber e familiares durante a celebração do Ano-Novo de 2023. Em outra ocasião, o oficial e a esposa aparecem em um restaurante com Cléber e o advogado Antonio Carlos Ubaldo Júnior, que também foi preso na Operação Janus.
Segundo a investigação, Cléber e Robson ainda participavam de um grupo de WhatsApp criado aparentemente pela esposa do coronel. O grupo, chamado "Aniversário general", tratava de assuntos pessoais, festas e confraternizações e permaneceu ativo pelo menos até novembro de 2023.
A Operação Janus foi deflagrada em 21 de julho pelo Ministério Público de São Paulo, com apoio operacional da Polícia Militar. Ao todo, 11 pessoas foram presas entre os 18 investigados que tiveram a prisão preventiva decretada.
De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o grupo investigado teria mantido uma estrutura clandestina para receber dinheiro em espécie e devolver os valores por meio de transferências realizadas por empresas e contas de terceiros. O mecanismo, chamado pelos próprios investigados de "TED por vivo", teria sido usado para inserir recursos de origem criminosa no sistema financeiro sem identificar o verdadeiro proprietário.
Os promotores também sustentam que a organização funcionaria como uma espécie de banco para integrantes do PCC. A estrutura seria utilizada ainda para compra de dólares destinados a integrantes da facção, atuação em tribunais do crime e movimentação de valores que teriam como destino policiais.
Cléber e Robson já haviam sido citados em outras investigações, incluindo as operações Fractal e Bazaar. A Operação Janus aprofundou as apurações sobre o possível papel financeiro desempenhado pelo grupo e seus vínculos com a facção criminosa.
Em nota conjunta, a Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública afirmaram que não compactuam com desvios de conduta praticados por integrantes das forças de segurança. Os órgãos informaram ainda que já adotaram providências para apurar os fatos mencionados na investigação do Ministério Público.
A Corregedoria da Polícia Militar solicitou à Promotoria acesso aos autos da investigação para avaliar o caso e adotar as medidas cabíveis nas esferas penal militar e disciplinar.