O poeta chileno Pablo Neruda escreveu" Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" . Teresina poderia ter sido inserida nas páginas de algum desses poemas e surgido pela janela diante do cais do rio Parnaíba, discretamente ao lado do poeta, como quem não pede licença para existir.
Cheguei a Teresina em 28 de novembro de 1981, e a residência de meus pais ficava no centro desta capital, na Rua Firmino Filho, próximo ao Verdão. Tinha dez anos e uma infância ainda suficientemente pequena para percorrer, sem pressa, centenas de vezes as praças desta Capital e compreender, muito depois, que algumas cidades começam a fazer morada na gente antes mesmo de percebermos.
Teresina abraçou-me com seu calor. Não apenas aquele que os termômetros registram, mas o outro, que se aprende com o tempo: o das portas abertas, das conversas prolongadas, das amizades que atravessam décadas e das pessoas que sabem o nome umas das outras.
Aqui conheci a cantora global Patrícia Mellodi, uma das grandes cantoras piauienses; o jornalista Arimateia Azevedo, deste veículo que vos fala; a imortal da Academia de Ciências, Lizeth Napoleão; José Messias, da escola de samba "O Sambão" ; o jornalista e imortal Herculano Moraes; o renomado escritor Assis Brasil; o professor e ex-deputado Jonathas Nunes; e, entre tantos outros, João Cláudio e a cantora Simone. Conheci também pessoas simples, como o comerciante Abraão, da tradicional casa de sucos; o senhor Cornélio, dono do pão de queijo mais famoso de Teresina, in memoriam; o senhor Edson, proprietário de um dos bares mais antigos em frente à Igreja de São Benedito; e o jornalista Kenard Kruel. São tantos nomes que eu poderia passar o dia inteiro falando deles.
Desde então, vi a cidade trocar de pele muitas vezes.
Vi casas antigas desaparecerem sob o peso do progresso. Vi ruas mudarem de fisionomia, bairros crescerem como braços procurando novos horizontes e árvores serem retiradas sem que ninguém perguntasse às flores se suas pétalas resistiriam.
Também vi Teresina amanhecendo diante de um horizonte imensurável.
É diferente. É vívido. É inesquecível.
Há uma hora em que a cidade ainda não está completamente acordada. As primeiras pessoas atravessam as ruas, o comércio começa a levantar suas portas, os ônibus ocupam seus caminhos e o dia se organiza pouco a pouco. Nessa hora, Teresina parece conversar consigo mesma.
Talvez seja nesse silêncio breve que uma cidade revele sua intimidade.
Os rios Poti e Parnaíba sempre me pareceram duas linhas neurais atravessando Teresina. Não apenas águas correndo para algum lugar, mas uma espécie de escrita líquida, sobre o amor efêmero tratado por Bauman, levando consigo aquilo que a cidade não consegue guardar. O tempo passa por eles sem pedir autorização. Nós também.
E há o calor.
Ah, o calor de Teresina.
Ele não é apenas temperatura. É personagem. Participa das conversas, modifica os horários, procura as sombras, acompanha quem atravessa uma avenida e conhece cada árvore que ainda resiste nas calçadas. Às vezes penso que o sol daqui não ilumina: ele flameja e se multiplica fazendo companhia a cada pessoa.
Depois de tantos anos, aprendi que amar uma cidade não significa transformá-la em uma paisagem bonita.
Teresina tem feridas. Tem ruas que pedem cuidado, espaços que perderam sua função, memórias destruídas, indivíduos abandonados no meio do caos urbano. Mas talvez o amor mais honesto seja justamente aquele que não fecha os olhos diante daquilo que precisa ser mudado.
Neruda escreveu sobre o amor e a ausência. Eu escreveria sobre a permanência.
Sobre aquilo que fica depois que a infância passa.
Cheguei aos dez anos e, sem perceber, fui deixando pedaços de mim por Teresina. Uma lembrança em cada rua. Uma conversa numa esquina. Um rosto que o tempo levou. Uma tarde que nunca mais voltou. Uma parte da infância escondida em algum lugar que talvez já nem exista.
É por isso que Teresina poderia estar entre os poemas de Neruda. No alvorecer ou nos bancos das praças da Avenida Frei Serafim com suas antigas fontes luminosas.
Não como imitação de sua poesia, mas como personagem de um poema que ele nunca escreveu.
E, se fosse preciso acrescentar uma canção desesperada a essa história, talvez ela não fosse de tristeza.
Seria uma canção contra a falta de memória, distanciando-me das angústias.
Contra a pressa que derruba o antigo sem perguntar o que ele significava. Contra a cidade que cresce e, no caminho, pode perder a própria lembrança.
Eu cheguei menino.
A cidade me viu crescer.
Hoje, olhando para trás, descubro que os anos não passaram simplesmente por mim. Passaram também pelas ruas, pelas árvores, pelos rios, pelas casas e pelas pessoas que fizeram de Teresina a cidade que conheci.
Talvez seja isso que uma cidade faz quando realmente nos pertence:
ela deixa de ser apenas o lugar onde vivemos
e passa a ser uma parte daquilo que somos.
Do jornalista e poeta do fim do mundo:
Márcio Felipe Rocha