Desastre no Nepal deixa 1,3 mil desaparecidos e mobiliza ajuda internacional

Enchente deixou ao menos 362 mortos e atingiu moradores e turistas de vários países.

Parentes de pessoas desaparecidas lotaram hospitais e delegacias nesta quinta-feira (27) em busca de informações sobre vítimas das enchentes que atingiram a região de fronteira entre o Nepal e o Tibete. O número de mortos chegou a pelo menos 362, sendo 359 no Nepal e três na China. Pelo menos outras 1,3 mil pessoas, de 30 países, ainda não foram localizadas.

Foto: Niranjan Shrestha/AP Photo/picture alliance

Entre os desaparecidos estão ao menos 288 cidadãos da Índia, incluindo turistas e trabalhadores. Na região do Tibete, mais de 200 pessoas permanecem isoladas ou sem contato. Centenas de moradores também tiveram de deixar suas casas diante da destruição provocada pelas águas.

No Nepal, equipes de resgate continuam percorrendo as áreas atingidas em condições consideradas difíceis. Cerca de 240 pessoas já foram retiradas com vida por helicópteros. Mais de 7,4 mil socorristas foram mobilizados para atuar nas operações.

Em um hospital de Katmandu, o nepalês Chitra Bahadur Nepali procurava pelo sobrinho, Yubraj Sewak, que estava a caminho do distrito de Rasuwa quando perdeu contato com a família.

"O nome dele não aparece em nenhuma das listas que vimos, e outro membro da nossa família também está desaparecido", relatou Nepali, de 52 anos, enquanto mostrava uma fotografia do sobrinho no celular.

Rasuwa, no norte do Nepal, foi uma das primeiras áreas atingidas e concentrou parte dos danos mais graves. Uma grande correnteza de água, lama e detritos avançou pelos vales dos rios Bhote Koshi e Trishuli, destruindo casas, pontes, estradas e outras estruturas.

As águas seguiram por mais de 160 quilômetros em direção ao sul e também atingiram outros seis distritos, chegando até Chitwan, próximo à fronteira com a Índia.

No Tibete, autoridades chinesas informaram três mortes provocadas por deslizamentos de lama. Segundo a imprensa estatal chinesa, 558 pessoas estavam desaparecidas, entre elas 260 estrangeiros. O grupo inclui oito cidadãos da Alemanha.

Não há registro de brasileiros entre os mortos ou desaparecidos.

A extensão dos danos ainda está sendo levantada. Muitos corpos foram encontrados vários quilômetros distante dos locais onde as enchentes ocorreram, principalmente nas proximidades da fronteira com a Índia. Em alguns casos, as equipes localizaram apenas partes dos corpos.

A passagem fronteiriça de Gyirong também foi severamente atingida. A lama deixou estradas intransitáveis para veículos pesados e dificultou a chegada de equipamentos utilizados nos trabalhos de emergência. Pontes foram destruídas, barragens danificadas e casas ficaram soterradas.

O cenário também preocupa autoridades por causa da possibilidade de novas enchentes. Lagos formados em áreas próximas à fronteira entre Nepal e China podem transbordar ou romper suas barreiras naturais.

Grande parte dos turistas desaparecidos é formada por indianos que estavam em peregrinação ao Monte Kailash, no Tibete, considerado sagrado pelo hinduísmo. Centenas de viajantes permaneciam fora do alcance das equipes de resgate.

A comunidade internacional começou a enviar ajuda às áreas atingidas. Os Estados Unidos anunciaram US$ 500 mil para ações emergenciais, incluindo fornecimento de água potável, abrigos e outros materiais. A União Europeia também ofereceu apoio e ativou o sistema Copernicus para mapear as regiões afetadas. Alemanha e Organização das Nações Unidas também anunciaram assistência.

As autoridades ainda investigam a causa exata das enchentes. Uma análise preliminar de imagens de satélite indicou que uma avalanche de origem glacial pode ter bloqueado um afluente do rio Bhotekoshi. O bloqueio teria formado um lago temporário que posteriormente transbordou, liberando uma grande quantidade de água, gelo e detritos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) também registrou tremores de magnitude 5,2 na região da fronteira. Avaliações posteriores, no entanto, apontaram que a movimentação sísmica pode ter sido provocada pelo colapso de uma geleira e pelo deslocamento de detritos.

A região do Himalaia é especialmente vulnerável a enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos por causa do relevo montanhoso e dos grandes volumes de gelo existentes nas geleiras.

Pesquisas recentes apontam que o derretimento das geleiras do Hindu Kush-Himalaia acelerou nas últimas décadas. Segundo estudos realizados por pesquisadores em Katmandu, a taxa de perda de gelo na região dobrou desde 2000, em meio ao aquecimento do planeta e às mudanças climáticas.

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