Três furacões se formam no Pacífico com o avanço do El Niño

Karina, Lowel e Marie avançam pelo oceano em meio a águas excepcionalmente quentes

Três furacões avançam simultaneamente pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira (3), em uma configuração considerada incomum por cientistas e associada às águas oceânicas mais quentes provocadas por um El Niño de grande intensidade.

Foto: CIRA/NOAA/AP Photo/picture alliance

A tempestade tropical Marie ganhou força na noite de quarta-feira (2) e passou a ser classificada como furacão na costa da Baixa Califórnia, no México. O sistema segue atrás dos furacões Karina e Lowell, que avançam para oeste pelo Pacífico, afastando-se do continente americano.

Segundo especialistas, o aquecimento das águas do Pacífico cria condições favoráveis para a formação e o fortalecimento de ciclones tropicais. O El Niño também pode reduzir o cisalhamento vertical dos ventos na região, permitindo que as tempestades se organizem e ganhem intensidade.

A cientista do clima Julia Cole, da Universidade de Michigan, explicou que o Pacífico tropical mais quente que o normal costuma estar associado a um número maior de tempestades intensas. O cientista atmosférico Benjamin Kirtman, da Universidade de Miami, afirmou que as temperaturas da superfície do mar estão próximas de níveis recordes.

Para Kirtman, as condições atuais são extremamente favoráveis à formação de tempestades. O aquecimento dos oceanos fornece energia para os sistemas tropicais, enquanto as alterações atmosféricas provocadas pelo El Niño contribuem para sua intensificação.

Uma situação semelhante foi registrada em 2015, outro período marcado por um El Niño intenso. Naquele ano, os furacões Kilo, Ignacio e Jimena, além da depressão tropical 14E, atravessaram o Pacífico ao mesmo tempo.

Lowell chegou à categoria 5

Entre os três sistemas que avançam atualmente pelo Pacífico, Lowell atingiu a categoria 5 da escala Saffir-Simpson, a classificação máxima para furacões. O fenômeno alcançou essa intensidade na quarta-feira, quando estava a centenas de quilômetros ao sul do Havaí.

Karina chegou à categoria 4 e deve perder força nos próximos dias. Lowell, por outro lado, deve continuar como um grande furacão enquanto avança em direção ao oeste, segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC).

O órgão americano alertou que as ondas provocadas por Lowell podem gerar condições perigosas no mar e correntes de retorno com risco de morte em áreas do Havaí nos próximos dias. O NHC também destacou que as previsões sobre a trajetória e a intensidade do furacão para períodos mais longos apresentam maior incerteza que o habitual.

O arquipélago ainda se recupera dos efeitos do furacão Lala, que passou próximo à região sul da Ilha Grande no mês passado e provocou ventos destrutivos e fortes enchentes repentinas.

Marie estava localizada a cerca de 600 quilômetros a sudoeste da extremidade sul da Baixa Califórnia nesta quinta-feira. A previsão da agência americana é de que o sistema ganhe ainda mais força até sexta-feira (4).

El Niño pode estar entre os mais fortes já registrados

Além de favorecer a formação de tempestades no Pacífico, o atual El Niño preocupa especialistas pelos possíveis efeitos sobre o clima mundial. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno tem 69% de probabilidade de se tornar o mais intenso já registrado.

O pico do fenômeno é esperado entre outubro e dezembro. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também classificou o El Niño como muito forte e apontou que há alta probabilidade de que ele persista até fevereiro.

O fenômeno ocorre quando há um aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical. Normalmente, os ventos alísios sopram de leste para oeste e mantêm parte da água quente concentrada no oeste do oceano. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem, permitindo que a água quente se desloque em direção ao leste e alcance a superfície.

Essa alteração interfere nos padrões de vento, pressão atmosférica e chuva em diferentes regiões do planeta. Como resultado, algumas áreas podem enfrentar períodos mais quentes e secos, enquanto outras registram mais chuva e temperaturas mais baixas.

Os efeitos podem atingir regiões como a Amazônia, a Indonésia e a Austrália, além de interferir no regime de monções da Índia e nos padrões de precipitação de áreas tropicais.

O El Niño faz parte de um ciclo natural que alterna períodos de aquecimento, resfriamento, associados à La Niña, e fases neutras. O fenômeno costuma ocorrer a cada dois a sete anos e geralmente dura entre nove e 12 meses.

Embora o El Niño não seja causado pelas mudanças climáticas, o aquecimento global pode intensificar seus efeitos e contribuir para a ocorrência de eventos extremos mais severos.

A OMM alerta que o calor acumulado nos oceanos é liberado gradualmente para a atmosfera, o que pode manter temperaturas globais elevadas mesmo depois do pico do fenômeno.

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