Nasci na noite de domingo, 2 de março de 1969, por volta das 23h15. O Brasil estava sob o AI-5 havia poucos meses. Censura, medo, liberdade suspensa. Cresci numa ditadura, mas em uma geração que não engoliu tudo calada.
A gente lutou. "Diretas Já" nas ruas, Tancredo eleito e morto antes de tomar posse, a Constituição de 88 nascendo. Não ficamos só olhando. Participamos.
E a trilha sonora veio junto. Queen, Pink Floyd, ABBA, Bee Gees, Gloria Gaynor. Do lado de cá, Chico, Caetano, Moraes Moreira, depois Titãs, Capital Inicial. Música que ainda hoje, ao ouvir dois ou três acordes, traz de volta uma casa, uma rua, um amor, uma juventude inteira.
Hoje, aos 57 anos, já vivi uns 21 mil amanheceres e 57 primaveras. Mais de meio milhão de horas. Os números assustam um pouco. A memória, no entanto, cabe em bem menos espaço do que a gente imagina ao dizer um simples “olá, como você está?”.
Dizem que o tempo cura. Não cura tudo. Só ensina a carregar a ausência de outro jeito. A dor muda de lugar, às vezes até silencia, mas certas lembranças continuam acesas.
As estações voltam. Primavera, verão, outono, inverno. Algumas pessoas não voltam com nenhuma delas. É da vida, não é mesmo?
Aos 57, eu entendi que envelhecer não é só somar anos. É ir juntando histórias, gente que ficou, gente que partiu, sonhos que deram certo e outros que não deram.
Se eu chegar aos 80, ainda terei uns 4.500 amanheceres pela frente. Parece bastante. Também parecia bastante quando eu tinha 20. O que posso dizer é que o tempo é tão efêmero quanto um piscar de olhos.
Talvez a conta não seja essa. Talvez seja só estar acordado quando o próximo chegar.
A vida não avisa quando será o último café, a última conversa, o último abraço. Por isso, a gente precisa prestar atenção no que parece pequeno. Esqueça a rudeza e o amargor da vida. Você nasce apenas uma vez e apenas uma vez pode escolher se tornar feliz. E cavalo selado só passa uma vez à porta.
O passado não volta. O futuro ainda não chegou. Sobrou este instante.
Amanhã, se amanhecer, haverá mais uma hora, mais um minuto, mais um segundo.
Não sei quantos ainda me restam.
Mas o próximo ainda não aconteceu.
E, enquanto houver um próximo, ainda há o que viver.