A eleição presidencial de 2026 encontrou em Nossa Senhora Aparecida um novo ponto de tensão entre religião e política. O episódio é mais amplo do que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro porque recupera uma divergência antiga entre setores do catolicismo e do evangelicalismo e mostra como símbolos religiosos podem ser incorporados à batalha eleitoral.
O Brasil continua sendo um país majoritariamente religioso, embora esteja mais diverso. O Censo 2022 do IBGE aponta que 56,7% da população de 10 anos ou mais se declarou católica e 26,9% evangélica. Espíritas representam 1,8%; umbanda e candomblé, 1%; outras religiosidades, 4%; e 9,3% declararam não ter religião. O levantamento ainda registra 0,1% de pessoas vinculadas a tradições indígenas e 0,2% sem declaração. O IBGE não utiliza “espiritualistas” como categoria estatística geral.
Esse retrato ajuda a compreender por que a religião adquiriu peso no debate público, mas não autoriza tratar católicos ou evangélicos como grupos politicamente homogêneos. A crença religiosa não determina automaticamente o voto.
A atual controvérsia também tem antecedentes. Em 1995, o episódio conhecido como “chute na santa”, protagonizado pelo então bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, tornou-se um dos símbolos do conflito público entre setores neopentecostais e o catolicismo. A agressão a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida provocou reação nacional e permanece como referência quando reaparecem disputas envolvendo a santa.
Outro capítulo ocorreu em 2007, quando o então deputado Victorio Galli apresentou na Câmara o PL 2.623/2007. O texto propunha substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Segundo os registros oficiais da Câmara, o projeto foi rejeitado e arquivado em 2008. Portanto, há um fato documental que precisa ser separado da disputa atual: o projeto existiu, mas não é de Flávio Bolsonaro e não está em tramitação.
Quase duas décadas depois, esse episódio voltou a circular nas redes sociais associado a Flávio. A informação de que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil foi negada por ele. A Folha de S.Paulo informou que a notícia falsa ganhou força e levou a campanha do candidato a reagir publicamente e recorrer à Justiça Eleitoral.
A origem da nova onda de desinformação foi posteriormente relacionada a uma fala exibida pela GloboNews, que acabou sendo interpretada nas redes como se descrevesse uma iniciativa atual. A emissora se retratou e esclareceu a referência ao projeto antigo. A partir daí, uma discussão que poderia permanecer restrita à checagem dos fatos passou a ocupar espaço na campanha presidencial.
Lula decidiu abordar o tema com tom conciliador. Em entrevista à Band exibida no domingo, 27 de setembro, afirmou que não seria aceitável “mexer com Nossa Senhora Aparecida” e defendeu o respeito entre diferentes religiões. Quando questionado se a informação envolvendo Flávio era uma fake news, porém, respondeu que não sabia.
A postura merece atenção porque oferece ao presidente um caminho político diferente do confronto religioso. Em vez de transformar os evangélicos em adversários coletivos, Lula fala em respeito à fé e preservação da tradição católica. Isso representa uma vantagem no campo discursivo desta controvérsia, mas não permite concluir que o episódio tenha determinado vantagem eleitoral.
Flávio, por sua vez, passou a acusar setores da CNBB de participação na disseminação da informação. A entidade negou a acusação e afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.
O que está em jogo, portanto, não é apenas uma santa ou uma eleição. É a maneira como a política brasileira lida com a fé de milhões de pessoas.
Nossa Senhora Aparecida é um símbolo profundamente associado à identidade religiosa de parte expressiva da população, mas não pertence a partido político. O mesmo raciocínio vale para os evangélicos, que não constituem um eleitorado único e tampouco podem ser apresentados como representantes automáticos de determinada candidatura.
O Estado brasileiro é laico. Isso não significa que a religião deva desaparecer do espaço público. Significa que nenhuma crença deve ser transformada em instrumento de poder estatal ou em argumento para desqualificar quem pensa diferente.
A polêmica mostra ainda como uma informação antiga pode ser retirada de seu contexto, reaparecer nas redes e ganhar significado eleitoral. A velocidade da circulação digital tornou a desinformação particularmente eficiente porque a primeira impressão costuma chegar antes da correção.
Lula escolheu a conciliação; Flávio precisou negar uma proposta que não apresentou. A disputa, porém, não deveria ser sobre quem consegue utilizar melhor um símbolo religioso, mas sobre como os candidatos pretendem governar um país formado por católicos, evangélicos, espíritas, praticantes de religiões afro-brasileiras, outras tradições e milhões de pessoas sem religião.
A fé é uma dimensão da vida privada e social. O voto é uma decisão política individual. Misturá-los para produzir medo, desconfiança ou hostilidade transforma uma diferença legítima de crença em instrumento de polarização.
E essa é a parte realmente perigosa dessa história: quando a política começa a disputar o território da fé, o eleitor deixa de ser tratado como cidadão e passa a ser tratado como identidade religiosa.