Condenada à morte nos EUA sobrevive a duas injeções letais

Caso levou governador do Tennessee a suspender a última execução prevista no ano.


O governo do Tennessee, nos Estados Unidos, suspendeu as execuções previstas até o fim do ano após a condenada à morte Christa Pike sobreviver a duas doses letais de pentobarbital durante uma tentativa de execução nesta quarta-feira (30). O governador Bill Lee determinou uma revisão independente para apurar o que ocorreu e anunciou que a execução que estava prevista para 3 de dezembro não será realizada.

Foto: Reprodução/ABCNews

Pike, de 50 anos, passou quase três décadas no corredor da morte após ser condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, cometido em 1995, quando tinha 18 anos. Ela seria a primeira mulher executada no Tennessee em 200 anos.

A execução estava marcada inicialmente para as 10h de quarta-feira. Um tribunal de apelações chegou a suspender a aplicação da injeção letal uma hora antes, mas a Suprema Corte derrubou a suspensão horas depois.

Durante a execução, Pike recebeu duas doses de pentobarbital e permaneceu viva. Segundo seus advogados, ela foi retirada da prisão de ambulância e levada para um hospital. A defesa afirmou que não havia recebido informações sobre o estado de saúde dela.

O Departamento Correcional do Tennessee declarou que cumpriu todas as etapas previstas no protocolo legal de execução do estado. O procedimento determina a aplicação de um segundo conjunto de seringas com drogas letais caso o condenado não esteja morto após a primeira aplicação. O protocolo, porém, não estabelece o que deve ser feito caso a pessoa permaneça viva depois da segunda tentativa.

Robin M. Maher, diretora executiva do Centro de Informações sobre a Pena de Morte, afirmou que o caso é “único e sem precedentes”. Segundo ela, outras sete pessoas sobreviveram a problemas médicos relacionados à dificuldade das equipes de execução para acessar uma veia e administrar os medicamentos, mas ninguém havia permanecido vivo após receber as drogas utilizadas nesse tipo de procedimento.

Testemunhas relataram que era possível ouvir a respiração de Pike durante quase uma hora depois da aplicação das substâncias. Jornalistas que acompanhavam a execução de uma sala separada disseram que as cortinas da câmara foram abertas às 19h27, quando Pike apareceu presa a uma maca. Na ocasião, ela afirmou que estava em paz.

Pike permaneceu consciente e, em determinado momento, levantou a cabeça e perguntou aos funcionários da prisão se era normal que seu braço estivesse daquela forma. Não ficou claro o que ela quis dizer.

Às 20h26, testemunhas informaram que a segunda dose de pentobarbital havia sido administrada. Pike continuou sendo ouvida roncando atrás da cortina fechada até que o microfone foi desligado, às 20h53. Em seguida, os jornalistas foram retirados do local.

O caso também reacendeu a discussão sobre a aplicação da pena de morte a pessoas condenadas por crimes cometidos quando eram jovens. Pike tinha 18 anos quando ela e o namorado, Shipp, espancaram e mataram Colleen Slemmer, de 19 anos, em um centro de treinamento profissional para jovens em Knoxville.

Os advogados de Pike pediram clemência ao governador Bill Lee, alegando que ela tinha pouca idade e apresentava problemas de saúde mental na época do crime. Segundo o pedido, ela sofria de uma doença mental grave. Lee afirmou que não iria intervir na sentença.

O defensor público federal assistente Stephen Ferrell afirmou que o caso de Pike era excepcional porque outros condenados de 18 anos no Tennessee tiveram suas sentenças de morte anuladas.

Pike e Shipp foram condenados pelo assassinato de Slemmer, cometido com facadas e espancamento. O caso ganhou repercussão nacional depois que o corpo da vítima foi encontrado com um pentagrama gravado no peito.

Segundo os promotores, Pike atraiu Slemmer para uma área de mata em 12 de janeiro de 1995 porque acreditava que a jovem tentava roubar seu namorado. Pike feriu Slemmer com um estilete e a espancou com um pedaço de concreto. Shipp, que tinha 17 anos na época, admitiu ter sido o responsável por gravar o pentagrama no corpo da vítima.

Shipp recebeu prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Pike foi a única condenada à morte.

Depois do assassinato, Pike foi diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. No pedido de clemência, afirmou que pretendia apenas brigar com Slemmer, mas acabou matando a jovem durante um ataque de fúria.

A defesa também alegou que Pike sofreu abuso sexual severo e pediu que sua idade e suas condições de saúde mental fossem consideradas na análise da sentença. Pike não negou ter cometido o assassinato.

A mãe de Slemmer, May Martinez, havia viajado para Nashville para acompanhar a execução. Ela afirmou à Associated Press, antes da tentativa, que aguardava havia décadas pelo cumprimento da sentença de Pike. Após a suspensão da execução, ela não foi localizada imediatamente para comentar o caso.

A execução de Pike também teria sido a 30ª realizada nos Estados Unidos em 2026. No ano passado, foram registradas 47 execuções no país, contra cerca de 20 por ano na década anterior. O número de 2025 foi o maior desde 2009, quando 52 execuções foram registradas.

Desde que a Suprema Corte dos Estados Unidos restabeleceu a pena de morte, em 1976, 18 mulheres foram executadas no país, o equivalente a cerca de 1% do total, segundo o Centro de Informações sobre a Pena de Morte.

A última execução de uma mulher nos Estados Unidos ocorreu em 2023, no Missouri, quando Amber McLaughlin foi executada. Ela foi também a primeira mulher transgênero executada no país.

A pena de morte foi abolida em 23 dos 50 estados americanos. Califórnia, Oregon e Pensilvânia mantêm moratórias sobre execuções por determinação de seus governadores.

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