Os paladinos da suruba

Discurso de moralidade entra em choque com revelações sobre a vida privada de seus defensores


Eu vivi para ver surgir um tipo curioso de gente que passou a se considerar moralmente superior aos demais. Pessoas que pareciam ter recebido uma espécie de autorização para julgar o comportamento alheio, distribuir lições de moral e determinar quem seria digno ou indigno de respeito. Só que a realidade, como costuma acontecer, tratou de desmontar algumas dessas certezas.

Foto: reprodução

Durante muito tempo, vi gente desfilar superioridade moral usando “Deus, Pátria e Família” como uma espécie de selo de qualidade. A expressão, em si, não tem nada de errado. O problema aparece quando ela é utilizada como instrumento para estabelecer uma fronteira entre os supostamente bons e os demais, como se repetir essas três palavras fosse suficiente para comprovar honestidade, caráter e virtude.

É aí que a contradição aparece.

A nossa velha Sodoma e Gomorra continua existindo, embora muita gente prefira acreditar que ela está sempre no quintal dos outros. Por trás das cortinas, nas conversas privadas e na vida que não aparece nas redes sociais, existem comportamentos que nem sempre combinam com a imagem cuidadosamente construída em público. E isso não seria problema algum se essas mesmas pessoas não passassem tanto tempo tentando fiscalizar a vida alheia.

As máscaras começaram a cair quando vieram à tona histórias envolvendo alguns desses autoproclamados paladinos da moralidade e suas preferências por uma boa suruba. E é importante separar as coisas: não há nada de errado com a vida sexual de adultos que fazem suas escolhas de maneira consensual. Cada pessoa tem o direito de viver sua intimidade como quiser.

O problema está em outra parte.

A questão é a hipocrisia de quem transforma a moralidade em discurso público, utiliza valores religiosos para condenar determinados comportamentos e, ao mesmo tempo, mantém uma vida privada que pode ser bastante diferente daquela imagem que apresenta aos outros. De forma alguma quero condenar a suruba. Trata-se de questionar a necessidade de esconder determinadas práticas enquanto se tenta controlar a vida de quem não segue os mesmos padrões.

Talvez o mais interessante seja perceber como essa necessidade de parecer moralmente superior acaba revelando justamente a insegurança de quem precisa convencer os outros de que é aquilo que diz ser. Pessoas realmente seguras de suas escolhas não precisam construir uma personagem pública permanentemente preocupada em demonstrar superioridade moral.

A vida privada pertence a cada um. O problema começa quando alguém transforma sua própria moral particular em regra universal e passa a exigir dos outros uma conduta que não consegue sustentar dentro da própria casa.

Foi isso que sempre me incomodou. Não a liberdade de cada pessoa escolher como quer viver, amar ou se divertir. O que incomoda é a tentativa de transformar hipocrisia em virtude e julgamento moral em certificado de caráter.

No fim das contas, talvez devêssemos ter um pouco mais de cuidado antes de aceitar como verdade aquilo que alguém anuncia sobre si mesmo. A experiência mostra que discursos muito rígidos sobre moralidade podem esconder justamente aquilo que seus autores passam a vida condenando nos outros.

E é aí que entram os paladinos da suruba: não como uma crítica à liberdade sexual, mas como uma ironia diante daqueles que descobriram que é muito mais fácil fiscalizar a vida alheia do que lidar honestamente com as próprias contradições.

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