Todo castigo para o fanático político é pouco. E não estou aqui querendo dar uma de “isentão”, porque, no privado, eu tenho lado, sim. O lado dos vulneráveis, dos alquebrados, dos invisíveis desta sociedade e da fraternidade. Porém, quando o sujeito endeusa um político, transforma o voto em instrumento de vingança e ignora o contexto coletivo, social e político, o problema deixa de estar na posição ou na preferência e passa a estar na incapacidade de avaliar os fatos porque o personagem está do lado que escolheu.
Platão, em A República, coloca a justiça no centro da organização da vida coletiva. A ideia permanece atual: não faz sentido condenar determinada atitude quando praticada pelo adversário e, ao mesmo tempo, encontrar justificativas quando praticada pelo político de preferência. É preciso um pouco mais de coerência e equilíbrio na balança. O voto não deveria ser usado para satisfazer ressentimentos, mas para escolher quem terá responsabilidade sobre decisões que afetam toda a sociedade.
O antropólogo Roberto DaMatta ajuda a compreender essa contradição ao analisar a relação brasileira com as regras, as posições sociais e as relações pessoais. A conhecida expressão “Você sabe com quem está falando?” representa a tentativa de obter um tratamento diferente diante de uma regra que deveria valer para todos. Na política, isso aparece quando o eleitor aceita, no próprio grupo, aquilo que condena no adversário. A régua muda conforme muda o lado.
Esse comportamento não pertence a uma ideologia específica. Pode aparecer em qualquer campo político quando a paixão substitui a capacidade de questionar. Se cobramos transparência de um lado, devemos cobrá-la do outro. Se defendemos as instituições em uma situação, não podemos relativizá-las quando o beneficiado é alguém de nossa preferência. Sem esse critério, a discussão política se transforma apenas em uma disputa de versões. Antes de julgar, leiam, pesquisem incansavelmente e saiam de suas bolhas para, só então, emitir uma opinião.
Ter senso de justiça deveria ser o eixo central de tudo. O eleitor pode ter convicções, preferências e até rejeições, mas precisa conservar a capacidade de pensar, comparar e reconhecer erros. Quando o voto vira instrumento de vingança, perde-se de vista aquilo que deveria estar acima de qualquer político: o interesse coletivo.