O segredo de Lula para governar o Brasil

O Exército do Lula pode ampliar a pressão popular sobre o congresso

Os apoiadores de Flávio Bolsonaro repetem que Lula terá dificuldades para governar por não contar com maioria no Congresso Nacional. O argumento considera a composição parlamentar, mas ignora uma possibilidade política: a capacidade de mobilização popular pelas redes sociais.

Foto: Reprodução

Lula não é um novato na política. Sabe que precisa negociar com deputados e senadores para aprovar projetos. Entretanto, a experiência do Exército do Lula, grupo digital impulsionado pelo deputado federal André Janones, revelou uma ferramenta que pode ganhar outra dimensão depois das eleições.

O canal ultrapassou 10 milhões de seguidores no WhatsApp em outubro de 2026, segundo informações publicadas pelo Poder360. O alcance demonstra o potencial da comunicação digital, embora o número de seguidores não corresponda necessariamente a participantes ativos.

A questão é o que fazer com essa estrutura agora que a eleição terminou.

Lula pode transformar a mobilização eleitoral em participação política permanente, aproximando o governo de milhões de brasileiros. A proposta de fortalecer a atuação digital do Estado, caso se concretize institucionalmente, poderá ampliar os canais de comunicação entre o Executivo e a população. É preciso, porém, distinguir um eventual Ministério Digital de uma estrutura de mobilização política: são iniciativas diferentes.

O potencial dessa estratégia está na capacidade de organizar cidadãos em torno de propostas, explicar projetos e cobrar posicionamentos de seus representantes. Quando deputados e senadores votarem matérias de interesse público, a população poderá acompanhar suas decisões e manifestar apoio ou oposição de maneira organizada.

É nesse cenário que surge a ideia de um verdadeiro Exército do povo: não uma força para substituir o Congresso, mas uma rede de cidadãos capazes de participar da vida pública para além do voto. A pressão social, quando democrática e baseada em informações verificáveis, pode influenciar as decisões políticas e elevar o custo eleitoral de posições contrárias às demandas dos eleitores.

Isso não significa que Lula conseguirá aprovar qualquer projeto. O Congresso mantém suas prerrogativas constitucionais, e a mobilização digital não substitui a negociação parlamentar. Além disso, uma rede numerosa só terá influência duradoura se conseguir converter alcance em participação efetiva.

O ponto central é que a disputa política não acontece apenas dentro do Parlamento. Também se desenvolve nas redes, na opinião pública e na capacidade de mobilizar a sociedade em torno de objetivos comuns.

Os adversários de Lula podem apostar nas dificuldades de uma eventual minoria parlamentar. O presidente, por sua vez, tem a oportunidade de explorar uma força que as estruturas tradicionais da política nem sempre conseguem dimensionar.

Se souber organizar essa participação com transparência, responsabilidade e respeito à democracia, Lula poderá ampliar sua capacidade de articulação e fortalecer a cobrança popular sobre o Congresso.

A questão não é substituir a maioria parlamentar por seguidores nas redes sociais. É fazer com que a sociedade também tenha voz e força na política.

Leia também