EDITORIAL: Rafael Fonteles, o maior obstáculo pode estar dentro de casa

Não é por acaso que seu nome ganhou força em Brasília. Mas todo cuidado nessa hora

O governador do Piauí reúne credenciais para assumir o Ministério da Fazenda, mas precisará compreender que certas alianças locais e resistências dentro do próprio PT podem comprometer seu futuro político nacional.

A possibilidade de Rafael Fonteles assumir o Ministério da Fazenda no próximo governo Lula representa muito mais do que uma conquista pessoal ou uma vitória política para o Piauí. Trata-se de uma oportunidade histórica de projetar uma nova liderança nacional, capaz de combinar capacidade técnica, habilidade administrativa e legitimidade eleitoral.

Não é por acaso que seu nome ganhou força em Brasília. Matemático, mestre em Economia Matemática, ex-secretário estadual da Fazenda e governador reeleito com expressiva votação, Rafael reúne atributos que o distinguem de boa parte dos quadros políticos de sua geração.

Há nele uma qualidade especialmente importante para o momento econômico brasileiro: a capacidade de dialogar com diferentes setores sem necessariamente abandonar os compromissos sociais que fundamentam sua trajetória partidária.

Entretanto, o caminho entre o Palácio de Karnak e o Ministério da Fazenda está longe de ser uma avenida livre de obstáculos.

E alguns deles podem estar perigosamente próximos.

Foto: Reprodução
Rafael Fonteles

O primeiro obstáculo é o próprio PT.

As notícias sobre a possibilidade de sua nomeação já produziram reações em setores do partido que enxergam com desconfiança sua boa interlocução com o mercado financeiro. A disputa, entretanto, não parece se limitar a divergências legítimas sobre política econômica. Existe também uma competição interna pelo controle das decisões estratégicas do próximo governo e pela sucessão política de Lula.

É compreensível que existam diferentes correntes no PT. O partido sempre foi marcado por disputas internas. O que não seria razoável é transformar essas divergências em instrumentos para impedir a ascensão de uma liderança que reúne condições concretas de assumir responsabilidades nacionais.

Afinal, ter credibilidade perante agentes econômicos não significa renunciar à defesa dos trabalhadores, assim como responsabilidade fiscal não é sinônimo de insensibilidade social.

O segundo obstáculo, talvez menos evidente, está no próprio Piauí.

Rafael precisa compreender que nem todos os que hoje o cercam estão necessariamente comprometidos com seu crescimento político.

O poder estadual produz alianças, conveniências e relações de dependência. Nem sempre, porém, aqueles que se beneficiam da proximidade com um governador desejam vê-lo conquistar autonomia política em âmbito nacional.

Há uma diferença fundamental entre ser aliado de um governo e ser aliado do futuro político de seu governante.

No Piauí, Rafael convive com grupos políticos de trajetórias, interesses e compromissos distintos. Alguns carregam práticas tradicionais de exercício do poder, marcadas pelo personalismo, pelo fisiologismo e pela preservação de espaços políticos.

Não se trata de atribuir indistintamente essas características aos seus aliados, mas de reconhecer que determinadas companhias podem comprometer a imagem de renovação, competência e independência que Rafael precisa consolidar nacionalmente.

Quem pretende administrar a economia do Brasil não pode permitir que sua imagem fique subordinada às conveniências da pequena política local.

Uma coisa é construir uma coalizão para governar o Piauí. Outra, muito diferente, é transportar para Brasília os compromissos, os conflitos e as contradições dessa coalizão.

O Ministério da Fazenda exige credibilidade institucional, autonomia e capacidade de resistir a pressões. Uma indicação dessa magnitude não pode ser contaminada pela percepção de que o futuro ministro estaria preso a interesses de grupos políticos regionais.

Rafael não precisa romper indiscriminadamente com seus aliados. Precisa, entretanto, estabelecer limites claros entre a lealdade política e a submissão a interesses particulares.

É justamente nesse ponto que a situação exige maturidade.

Aqueles que hoje celebram sua possível nomeação talvez não compreendam que o projeto político de Rafael entrou em outra dimensão. Seu futuro já não pode ser pensado exclusivamente a partir das disputas locais, da distribuição de cargos ou da manutenção de acordos estaduais.

O governador passou a ocupar uma posição que exige uma visão nacional.

E essa mudança naturalmente incomoda.

No interior do PT, porque sua ascensão altera o equilíbrio entre correntes e lideranças. No Piauí, porque um Rafael nacionalmente fortalecido pode tornar-se menos dependente das estruturas tradicionais de poder.

Não é necessário imaginar conspirações para perceber esses riscos. Basta compreender como funcionam as disputas políticas.

Foto: Reprodução
Rafael Fonteles e Lula

É nesse cenário que a palavra de Lula será decisiva.

Somente o presidente terá autoridade política para encerrar as especulações, enfrentar as resistências internas e conferir legitimidade definitiva à eventual escolha de Rafael Fonteles.

Se Lula realmente considera o governador preparado para comandar a economia brasileira, precisará demonstrar que sua decisão será orientada pelos interesses do país, e não pelo desejo de acomodar correntes partidárias ou preservar estruturas internas de influência.

Ao mesmo tempo, é importante que Rafael não transforme a expectativa de uma nomeação em precipitação política. Foi reeleito governador e tem compromissos com os piauienses. Uma eventual mudança de rumo exigirá justificativa pública, segurança institucional e garantias de que o estado continuará sendo administrado com estabilidade.

A oportunidade, contudo, é extraordinária.

Se chegar ao Ministério da Fazenda e conseguir conciliar crescimento econômico, equilíbrio fiscal e inclusão social, Rafael poderá consolidar uma dimensão política que ultrapassa as fronteiras do Piauí e o coloca entre os nomes relevantes para o futuro da esquerda brasileira.

Mas, para isso, precisará preservar aquilo que o trouxe até aqui: capacidade técnica, independência e identidade própria.

Sobretudo, precisará aprender uma lição antiga da política: nem todo abraço representa apoio, nem toda proximidade significa lealdade.

O maior risco para Rafael Fonteles talvez não esteja nos adversários declarados, mas naqueles que desejam continuar exercendo influência sobre ele mesmo quando seus horizontes políticos já ultrapassaram os limites do Piauí.

O estado tem razões para desejar que um de seus governadores alcance uma das posições mais importantes da República.

Mas Rafael também precisa compreender que ninguém se torna uma liderança nacional permanecendo refém das conveniências provincianas.

O momento exige coragem para avançar e discernimento para escolher as companhias.

Porque chegar ao Ministério da Fazenda seria uma vitória importante.

Chegar até lá sem carregar os vícios da velha política seria uma vitória ainda maior, porém exigirá deixar claro que certas companhias que estão muitas vezes dentro de casa, da sua família, seja sua ou da sua esposa, amigos de longas datas do colégio Dom Barreto, que prosperam muito no seu governo no Piauí, não serão presença no seu cotidiano de Brasília em um cargo que é considerado pela literatura especializada o pior do mundo.

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