O calor extremo que atingiu o Brasil no fim de setembro deixou uma sucessão de registros que não deveria ser tratada apenas como curiosidade meteorológica. Em 28 de setembro, Nova Xavantina (MT) chegou a 43,3°C, a maior temperatura registrada no país naquele episódio, enquanto Corumbá (MS) marcou 43,2°C. No Piauí, a situação também foi excepcional. Oeiras alcançou 42°C em 30 de setembro e esteve entre os municípios mais quentes do Brasil, enquanto outras cidades piauienses, como São João do Piauí e Castelo do Piauí, também ultrapassaram os 40°C. Teresina igualmente enfrentou temperaturas próximas desse patamar. O problema, portanto, não está concentrado em uma única cidade: existe uma faixa do território piauiense submetida a períodos de calor extremo que afetam saúde, trabalho, consumo de energia e as condições de vida da população. O INMET mantém o monitoramento desses episódios e emitiu alertas específicos para o calor intenso no período.
Em Oeiras, os efeitos já começam a aparecer na vida cotidiana de maneira que dificilmente pode ser reduzida a uma simples sensação de desconforto. Moradores relatam que, depois das 9h da manhã, a água que chega às torneiras fica tão quente que algumas pessoas evitam lavar louças para não suportar o contato com as mãos. É um relato que precisa ser submetido a medição técnica antes de se transformar em dado científico sobre a temperatura da água, mas a experiência descrita pelos moradores é reveladora porque mostra como o calor interfere em atividades elementares. Quando uma população passa a alterar horários, reduzir a permanência ao ar livre e modificar tarefas domésticas para suportar as condições térmicas, o fenômeno já alcançou uma dimensão social. Oeiras, que chegou a registrar 41,3°C e apenas 14% de umidade relativa do ar no início de setembro, oferece um retrato particularmente expressivo dessa realidade.
É nesse ponto que a discussão sobre o clima precisa deixar de ser uma conversa exclusivamente sobre natureza e entrar definitivamente no planejamento das cidades. A afirmação de que “não há o que fazer porque o calor é natural” confunde duas coisas diferentes: uma prefeitura não controla a temperatura atmosférica, mas pode atuar sobre o ambiente urbano e diminuir a exposição da população ao calor. O próprio Ministério das Cidades afirma que a adaptação climática começa nos municípios e orienta gestores a incorporar os riscos climáticos às políticas urbanas. Desde julho de 2026, o Painel Cidades do AdaptaBrasil disponibiliza informações sobre ameaça climática, exposição e vulnerabilidade para os 5.570 municípios brasileiros, justamente para subsidiar decisões locais. Em maio, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação já havia apresentado a ferramenta aos prefeitos durante encontro nacional e destacado a necessidade de incorporar a perspectiva climática ao planejamento municipal.
Também não é correto afirmar que não existem alternativas para cidades submetidas a temperaturas elevadas. Arborização planejada, áreas de sombra, recuperação de espaços verdes, preservação de áreas permeáveis, parques, corredores de vegetação e soluções arquitetônicas capazes de reduzir a absorção de calor são medidas conhecidas internacionalmente. O próprio governo federal criou, em 2026, o ArborizaCidades, programa que destinou R$ 19 milhões para projetos municipais de arborização urbana e redução do calor extremo. A procura revelou a dimensão do problema: foram apresentadas 402 propostas de 388 municípios, com uma demanda de R$ 676,2 milhões. O dado mostra duas coisas ao mesmo tempo: os municípios reconhecem a necessidade de agir e os recursos disponíveis ainda estão muito aquém da demanda. Há ainda instrumentos para estudar recursos hídricos subterrâneos e outras características específicas de cada território; o que não pode existir é a transformação da falta de planejamento em uma suposta impossibilidade de agir.
O desafio colocado aos prefeitos, portanto, não é vencer o calor, algo obviamente impossível, mas preparar as cidades para conviver com temperaturas cada vez mais severas sem deixar a população entregue à própria sorte. Isso exige planejamento urbano, ampliação de áreas verdes, proteção de trabalhadores expostos ao sol, atenção especial a idosos e pessoas vulneráveis, espaços públicos sombreados, políticas de água e protocolos municipais para períodos de calor extremo. O problema não será resolvido com uma árvore plantada de forma isolada ou com uma obra improvisada depois que o termômetro ultrapassar os 40°C; exige continuidade administrativa, conhecimento técnico e orçamento. O que está em discussão, afinal, não é se o calor faz parte da natureza do Piauí, mas se o poder público aceitará essa realidade como justificativa para a inércia ou usará ciência, planejamento e recursos disponíveis para reduzir seus efeitos. O clima não pede licença para mudar. As cidades, porém, podem decidir se continuarão apenas registrando temperaturas ou se começarão, finalmente, a se preparar para elas.