Documentos de uma auditoria interna realizada pelo Banco Regional de Brasília (BRB) sobre a operação com o Banco Master, encontrados pela Polícia Federal (PF), registram pagamentos de R$ 33 milhões, em 2024, ao escritório da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa. Os mesmos documentos mencionam pagamentos de R$ 40 milhões, no mesmo ano, ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
As informações sobre os pagamentos foram divulgadas pelo Estadão e posteriormente repercutidas por outros veículos de imprensa. No caso de Dalide, os documentos da auditoria foram localizados pela PF durante as investigações relacionadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Diálogos de executivos do banco também obtidos pela PF mencionam o escritório de Dalide. Em uma conversa relacionada a despesas da instituição, o diretor da área financeira do Master, Ângelo Ribeiro, orientou o superintendente executivo de Tesouraria, Alberto Félix, sobre o pagamento ao escritório e fez referência à banca como um "canal direto com o STF". Os documentos, porém, não esclarecem o significado atribuído à expressão.
A assessoria de Dalide negou que ela tenha atuado para o Banco Master no STF. Em nota enviada ao Estadão, afirmou que a advogada "jamais atuou para o Master no STF nem procurou ministros da Corte para tratar de assuntos relativos ao banco".
Segundo a manifestação, a atuação do escritório ficou restrita a processos judiciais que haviam sido originalmente conduzidos em favor de empresas que venderam créditos ao Banco Master e que posteriormente foram sucedidas pelo banco nas ações. A assessoria afirmou ainda que esses trabalhos ocorreram exclusivamente em primeira e segunda instâncias.
Até o momento, não foram realizadas diligências específicas sobre o contrato de Dalide e, segundo as informações divulgadas, a Polícia Federal não apresentou avaliação sobre a legalidade ou eventual irregularidade na prestação dos serviços. Também não foram identificadas, nos diálogos citados, referências ao ministro Gilmar Mendes ou a outros ministros do STF relacionadas ao pagamento.
Dalide Corrêa tem 67 anos e é natural de Cansanção, no interior da Bahia. Formada em Direito pelo Centro Universitário de Brasília, possui pós-graduações em Direito Tributário, Direito Constitucional e Direito Processual Civil pelo Instituto Brasileiro de Direito Processual.
A advogada ocupou cargos jurídicos em diferentes órgãos públicos. Entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, foi diretora jurídica da Caixa Econômica Federal. Depois, atuou como assessora jurídica da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, procuradora-geral da Agência Nacional de Aviação Civil e chefe de assessoria parlamentar no STF.
Em 2010, Dalide abriu o escritório Alves Corrêa & Veríssimo Advocacia, em Brasília, onde atua como advogada-sócia administradora. No mesmo ano, passou a exercer o cargo de diretora-geral do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), instituição fundada pelo ministro Gilmar Mendes.
Dalide e Mendes se conheceram quando ele ocupava o cargo de advogado-geral da União, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e ela trabalhava na Caixa Econômica Federal. A relação profissional entre os dois terminou em 2017, após divergências relacionadas à administração do IDP.
A assessoria de Gilmar Mendes foi procurada e informou que o ministro não se manifestaria sobre o assunto. Segundo relatos feitos a interlocutores, Mendes afirmou ter se afastado de Dalide depois da saída dela do IDP e que atualmente não mantém relação de proximidade com a advogada.
Em 2022, Dalide integrou a chapa como suplente de João Campos, candidato do Republicanos ao Senado por Goiás. A candidatura não foi eleita. Naquele ano, ela declarou patrimônio de R$ 88,5 milhões, composto por imóveis, terrenos, joias e outros bens.
O caso ganhou repercussão porque os documentos encontrados pela PF também mencionam pagamentos feitos pelo Banco Master ao escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes. Dados da Receita Federal já haviam indicado pagamentos de aproximadamente R$ 40,1 milhões ao escritório em 2024. O contrato firmado naquele ano previa pagamentos mensais e tinha duração plurianual, segundo informações divulgadas anteriormente pela imprensa.
O escritório Barci de Moraes afirmou, em manifestação divulgada anteriormente, que não confirmava as informações sobre os pagamentos apresentadas a partir de documentos fiscais e classificou o vazamento dos dados como ilícito. Viviane Barci de Moraes reconheceu a existência de contrato com o Banco Master.
O Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, passou a ser alvo de investigações e posteriormente teve sua liquidação determinada pelo Banco Central. As apurações envolvem diferentes operações realizadas pela instituição e pagamentos a escritórios de advocacia, entre outros aspectos.
A existência dos contratos e dos pagamentos, por si só, não comprova irregularidade na prestação dos serviços jurídicos. No caso específico de Dalide Corrêa, as informações divulgadas até agora indicam que a Polícia Federal encontrou os documentos e os diálogos, mas ainda não realizou diligências sobre o contrato que permitam estabelecer uma conclusão sobre a legalidade dos serviços.