PF encontra citações a pagamentos para “Ciro” em celular de Vorcaro

A Polícia Federal apura elo do banqueiro com o senador Ciro Nogueira

Mensagens indicam comemoração do banqueiro Vorcaro após emenda apresentada por Ciro Nogueira (PP-PI) que beneficiaria Banco Master; parlamentar nega irregularidades e fala em “mentira fabricada”.

Foto: Reprodução
Ciro Nogueira 

A Polícia Federal (PF) identificou, em mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ordens de pagamento a um indivíduo identificado apenas como “Ciro”, além de diálogos frequentes com o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Os investigadores agora cruzam dados para verificar se as menções financeiras referem-se ao presidente nacional do Progressistas e se há nexo causal entre os repasses e a atuação legislativa do parlamentar em favor dos interesses do Banco Master.

A investigação, que corre sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou novos desdobramentos após a análise do aparelho celular de Daniel Vorcaro, preso preventivamente nesta quarta-feira, 4. Entre o material obtido, destaca-se uma conversa de maio de 2024 entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro do grupo. Na mensagem, Zettel elenca prioridades de desembolso, incluindo um "pagamento para Ciro", prontamente autorizado pelo banqueiro.

Embora o sobrenome do destinatário não conste nas ordens de pagamento diretas, a PF mapeou uma proximidade estreita entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira. Em agosto de 2024, o banqueiro celebrou via mensagem o que chamou de “bomba atômica no mercado financeiro”. A data coincide com a apresentação de uma emenda por Nogueira à PEC da autonomia do Banco Central, que visava elevar a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. A medida é vista por analistas como vital para a estratégia do Banco Master de atrair investidores para seus Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

Além da atuação legislativa, o nome do senador surge nos bastidores da polêmica aquisição de carteiras de crédito do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). Relatos colhidos pela investigação sugerem que Ciro Nogueira teria sido consultado antes do aval do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para o negócio. Em troca de apoio político e da pavimentação de uma futura candidatura de Ibaneis ao Senado, o grupo político de Nogueira teria atuado como facilitador de diálogos institucionais para o banqueiro.

Até o momento, a Polícia Federal trata os achados como indícios que demandam verificação. Não houve, contudo, a instauração de um inquérito formal específico contra o senador até que a quebra de sigilo bancário confirme se os fluxos financeiros de Vorcaro e Zettel chegaram efetivamente a contas ligadas ao parlamentar ou a seus intermediários.

Em nota ao Estadão, a assessoria de Ciro Nogueira afirmou que associar seu nome a pagamentos apenas pelo primeiro nome é "irresponsável e leviano", destacando que existem milhares de "Ciros" no país, inclusive na equipe de defesa do próprio Vorcaro. Negou amizade próxima com o empresário e disse estar tranquilo quanto à investigação, classificando as suspeitas como "mentira fabricada".

O ministro André Mendonça (STF) deve decidir nos próximos dias sobre novos pedidos de quebra de sigilo telemático e bancário de pessoas ligadas ao núcleo financeiro de Vorcaro. A Polícia Federal busca agora a "prova real": o comprovante de transferência que ligue a ordem de pagamento dada pelo banqueiro ao recebimento por parte de agentes políticos. A manutenção do caso no STF depende da confirmação de que os fatos apurados possuem relação direta com o exercício do mandato dos parlamentares citados.

Até o momento, não há indiciamento formal de Ciro Nogueira; o caso está em fase de verificação de indícios.

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