Lula descarta venda dos Correios e defende novas propostas

Presidente respondeu sobre Lulinha, educação e segurança pública

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi sabatinado nesta quinta-feira (27) pela TV Globo, em entrevista conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli. A conversa, transmitida ao vivo após o Jornal Nacional, teve cerca de 40 minutos e foi dividida em dois blocos. Lula foi questionado sobre as investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, além de Correios, educação e segurança pública.

Foto: Reprodução

A sabatina marcou uma das primeiras grandes exposições nacionais de Lula na campanha pela reeleição. O presidente havia ficado fora do primeiro debate presidencial da campanha, realizado pela Band no domingo (23), e sua participação na Globo passou a ter importância estratégica para a apresentação de sua candidatura ao eleitorado.

Lulinha

A entrevista começou com um tema de forte repercussão política: as investigações que envolvem Fábio Luís Lula da Silva.

Lula classificou as acusações contra o filho como “ilações” e afirmou acreditar em sua inocência. O presidente disse que não pretende interferir nas investigações e sustentou que, caso seja comprovada alguma irregularidade, Lulinha deverá responder perante a Justiça.

“Se ele tiver cometido algum ilícito, ele vai responder”, afirmou.

Lula também afirmou que a Polícia Federal tem liberdade para investigar e negou conhecer a lobista Roberta Luchsinger, citada no caso. O presidente questionou a utilização de conversas telefônicas como base para acusações e comparou a situação a episódios que, segundo ele, ocorreram durante a Operação Lava Jato.

O assunto ocupou espaço relevante da entrevista. Do ponto de vista eleitoral, entretanto, há uma questão sobre a proporção dedicada ao tema: Lulinha não é candidato à Presidência, não exerce o cargo de presidente e não responde pelo governo federal. A investigação envolvendo seu nome pode e deve ser questionada jornalisticamente, mas o espaço concedido ao assunto reduziu o tempo disponível para aprofundar propostas diretamente relacionadas ao futuro governo.

Correios

Ao tratar da situação dos Correios, Lula foi questionado sobre a crise financeira da estatal e sobre a possibilidade de privatização.

A resposta foi direta:

«“Não considero vender os Correios. Considero recuperar os Correios.”»

Lula reconheceu que a empresa não acompanhou as transformações do mercado de entregas. Segundo o presidente, novas empresas passaram a disputar o setor enquanto os Correios permaneceram sem acompanhar adequadamente as mudanças.

A saída apresentada por Lula envolve uma nova gestão, redução de despesas e possibilidade de associação com empresas privadas brasileiras ou estrangeiras.

“Se for necessário fazer associação com empresa, nós faremos”, afirmou.

A posição apresentada estabelece uma diferença clara em relação à privatização: o governo pretende manter o controle da estatal e buscar mecanismos para recuperar sua capacidade operacional e financeira.

A questão que permanece, entretanto, é como será financiada essa recuperação e quais medidas concretas serão adotadas para enfrentar o endividamento e melhorar a eficiência da empresa.

Educação

A educação ocupou parte importante do segundo bloco. Renata Vasconcellos apresentou dados sobre o acesso à escola entre crianças e adolescentes de 4 a 17 anos, próximo da universalização, mas contrapôs esse avanço aos problemas de aprendizagem.

Segundo o levantamento citado na entrevista, seis em cada dez estudantes concluem o ensino médio público sem dominar conhecimentos básicos de matemática.

A pergunta colocada a Lula foi sobre a razão dessa diferença entre acesso e aprendizagem e qual seria seu plano para enfrentar o problema em um eventual novo mandato.

O presidente respondeu destacando políticas implementadas durante seus governos.

Lula afirmou:

«“Se tem uma coisa que eu tenho orgulho é que o Brasil nunca teve um presidente da República que cuidasse da educação como eu cuidei.”»

Entre as medidas citadas, mencionou a expansão das escolas de tempo integral, o pacto pela alfabetização e o programa Pé-de-Meia, criado para estimular a permanência de estudantes do ensino médio.

Lula afirmou que cerca de 500 mil jovens abandonavam a escola por ano para contribuir com a renda familiar e disse que o programa de poupança estudantil reduziu a evasão em mais de 60% no primeiro ano.

Também apresentou dados sobre alfabetização e afirmou que o país alcançou 66% de crianças alfabetizadas na idade considerada adequada no primeiro ano do pacto citado durante a entrevista.

Outro ponto destacado foi a expansão das universidades e dos institutos federais. Lula afirmou que, dos quase 800 institutos existentes, 80% teriam sido criados durante seus governos e os de Dilma Rousseff.

Formação de professores

Questionado sobre a qualidade do ensino e o papel dos professores, Lula apresentou uma proposta voltada à formação docente.

Segundo ele, estudantes que obtiverem bom desempenho no Enem e escolherem a carreira de professor poderão receber bolsa de estudos.

A justificativa apresentada foi a necessidade de atrair estudantes de alto desempenho para o magistério.

“Os melhores querem outra coisa”, afirmou Lula ao explicar a dificuldade de atrair jovens para a profissão.

O presidente associou a qualidade do professor ao desempenho dos estudantes e defendeu maior investimento na formação docente.

Matemática

Lula também destacou a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Segundo ele, a iniciativa passou de 10 milhões para 14 milhões e depois para 18 milhões de participantes.

O presidente afirmou que a competição ajudou a aproximar os estudantes da matemática.

Na entrevista, citou Ceará e Piauí como exemplos de estados com bons resultados educacionais e mencionou o desempenho de estudantes cearenses no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA.

Lula também falou sobre uma instituição de matemática no Rio de Janeiro destinada a estudantes medalhistas em olimpíadas da área.

A resposta presidencial, entretanto, deixou evidente uma das principais dificuldades apresentadas na pergunta inicial: a ampliação do acesso e da permanência não resolveu, por si só, o problema da aprendizagem, especialmente em matemática.

Segurança pública

A segurança pública foi outro dos principais temas da sabatina.

Lula foi questionado sobre a expansão do crime organizado no Brasil e sobre o fato de o PT ter permanecido no governo federal durante parte significativa das últimas décadas.

O presidente recorreu à Constituição de 1988 para explicar a distribuição das responsabilidades. Segundo ele, a segurança pública ficou predominantemente sob responsabilidade dos estados, enquanto a União manteve atribuições específicas por meio das polícias federais.

Lula defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública e anunciou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública.

“Vamos aprovar a PEC, porque aprovando a PEC eu crio o ministério na semana seguinte”, afirmou.

Segundo o presidente, a mudança deverá definir claramente o papel da União, dos estados e dos municípios na segurança.

A proposta representa uma tentativa de ampliar a coordenação federal em uma área que atualmente possui forte concentração de responsabilidades nos governos estaduais.

Bahia

A entrevista colocou Lula diante de uma questão particularmente sensível: a segurança pública na Bahia.

Os jornalistas lembraram que o PT governa o estado há cerca de duas décadas e questionaram por que, mesmo com o partido no governo federal e estadual, os índices de violência continuam elevados.

Lula respondeu que nenhum governador brasileiro conseguiu resolver sozinho o problema da segurança pública.

O presidente defendeu investimentos e uma ação integrada entre diferentes forças de segurança.

A resposta deslocou a responsabilidade de uma esfera exclusivamente partidária para uma estrutura federativa mais ampla. Ao mesmo tempo, deixou sem uma explicação específica sobre por que governos petistas não conseguiram produzir resultados suficientes na Bahia durante o período citado.

Polícia Federal e crime organizado

Lula defendeu uma atuação maior da Polícia Federal contra organizações criminosas, observando que atualmente existem limites legais para sua atuação em determinados crimes estaduais.

O presidente citou a investigação do assassinato de Marielle Franco como exemplo da atuação federal.

Também afirmou que o governo vem trabalhando em medidas de combate às facções criminosas e mencionou legislação aprovada recentemente sobre o tema.

A estratégia apresentada inclui maior integração entre forças policiais, inteligência e atuação federal.

Narcotráfico e fronteiras

No combate ao narcotráfico, Lula afirmou que o Brasil precisa ampliar a cooperação internacional.

Segundo o presidente, ele apresentou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma proposta por escrito para que os dois países trabalhem conjuntamente contra o narcotráfico.

Lula também citou uma estrutura da Polícia Federal em Manaus e a participação de representantes policiais de países sul-americanos em ações de controle de fronteiras.

A proposta apresentada na entrevista busca tratar o crime organizado como um fenômeno que ultrapassa os limites estaduais e nacionais.

Municípios na segurança

No trecho final sobre segurança, Lula defendeu maior participação das prefeituras, citando Rio de Janeiro e São Paulo.

A proposta envolve uma atuação conjunta entre União, estados e municípios, com maior presença policial e coordenação das ações.

Lula afirmou que pretende recuperar áreas dominadas pelo crime organizado.

«“Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido.”»

A frase resumiu a ideia apresentada pelo presidente de recuperar o controle territorial de áreas submetidas à influência de organizações criminosas.

Considerações finais

No encerramento, Lula fez um balanço de seus governos e falou diretamente ao eleitor.

Aos 80 anos, afirmou viver “o melhor momento” de sua trajetória e disse ter consciência das políticas sociais implementadas durante seus governos.

O presidente voltou a destacar a expansão das universidades e dos institutos federais e afirmou que o Brasil passou de aproximadamente 5 milhões para 25 milhões de trabalhadores com diploma universitário.

Lula declarou que pretende chegar a 50 milhões.

A meta foi relacionada à necessidade de modificar o perfil da economia brasileira.

O presidente afirmou que o país deve continuar exportando produtos como minério de ferro, soja e milho, mas precisa ampliar a exportação de conhecimento.

«“Eu quero que o Brasil seja exportador de inteligência e de conhecimento.”»

A educação, segundo Lula, deverá receber forte investimento em um eventual novo mandato.

A entrevista sob análise

A sabatina teve um aspecto que merece registro editorial: o espaço dedicado ao caso Lulinha foi significativo em uma entrevista destinada ao candidato que disputa a Presidência da República.

A investigação envolvendo o filho de Lula possui relevância jornalística e pode ser questionada. Entretanto, Lulinha não é candidato, não ocupa cargo no governo federal e não é responsável pela formulação das políticas públicas que estarão submetidas ao eleitor em 2026.

Por isso, a distribuição do tempo pode ser questionada sob outro ângulo: quanto da entrevista deveria ser dedicado a um caso envolvendo um familiar do candidato e quanto deveria ser destinado às suas propostas, decisões de governo, resultados e compromissos para um eventual quarto mandato?

A questão ganha importância porque temas como educação, segurança pública, Correios e economia pública exigiriam maior detalhamento sobre metas, custos, prazos e mecanismos de execução.

Mesmo sob forte questionamento, Lula conseguiu conduzir parte significativa das respostas para sua agenda política. Recorreu ao histórico de seus governos, apresentou propostas para educação e segurança, descartou a privatização dos Correios e terminou a entrevista defendendo um novo ciclo de investimentos em educação e formação universitária.

Politicamente, o presidente conseguiu se sobressair na entrevista. Não apenas respondeu aos temas considerados sensíveis, como também conseguiu recolocar no centro da conversa algumas de suas principais bandeiras: inclusão social, educação, expansão das universidades, permanência dos jovens na escola, combate ao crime organizado e manutenção dos Correios como empresa pública.

O que ficou sem resposta

A entrevista também deixou questões abertas.

Nos Correios, Lula defendeu a recuperação da empresa, mas não apresentou, durante os trechos registrados, um plano financeiro detalhado para superar o déficit e a dívida.

Na educação, reconheceu implicitamente o desafio da aprendizagem ao responder sobre matemática, mas concentrou a argumentação nas políticas já implementadas e nas novas bolsas para formação de professores.

Na segurança pública, apresentou a criação de um novo ministério e a PEC como instrumentos de coordenação, mas a efetividade da proposta dependerá do Congresso e da capacidade de articulação entre União, estados e municípios.

No caso Lulinha, Lula afirmou que não protegerá o filho se houver comprovação de irregularidades, enquanto as investigações seguem seu curso.

A sabatina terminou, portanto, com uma combinação de defesa do legado, reconhecimento de problemas e apresentação de propostas, mas também com questões que permanecem abertas para a campanha.

O eleitor terá de avaliar não apenas aquilo que Lula afirma ter realizado, mas também a consistência das propostas apresentadas para os problemas que continuam presentes no país.

A principal marca da entrevista foi justamente essa tensão: Lula entrou na sabatina pressionado por temas envolvendo seu entorno, mas terminou ocupando o centro da conversa com sua própria agenda política e conseguiu sair do estúdio apresentando-se como candidato à continuidade de um projeto de governo.

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