A proposta de adoção do voto distrital misto no Brasil pode ampliar o poder dos presidentes de partidos e dificultar a entrada de novos nomes na política. A avaliação é de João Henrique Hummel, diretor-executivo da Action Consultoria, em entrevista ao programa WW, da CNN Brasil. O modelo está em discussão no Congresso Nacional e integra uma articulação para modificar o sistema de escolha de deputados federais, estaduais e vereadores. Para o especialista, a mudança pode fortalecer as direções nacionais das legendas, concentrando nelas decisões estratégicas sobre candidaturas, distribuição de recursos e organização partidária.
Pelo sistema proposto, metade das vagas legislativas seria preenchida por candidatos eleitos diretamente em distritos eleitorais, enquanto a outra metade seria distribuída com base em listas partidárias previamente organizadas. Nesse formato, os eleitores escolheriam um representante de seu distrito e também votariam em um partido. Segundo Hummel, a definição da ordem dos nomes nas listas aumentaria a influência das lideranças nacionais sobre quem teria mais chances de conquistar uma cadeira no Legislativo. O especialista avalia que essa estrutura poderia reduzir a autonomia dos diretórios estaduais e tornar a ascensão política mais dependente das decisões tomadas pelas cúpulas partidárias.
Hummel também relaciona a possível concentração de poder ao financiamento público das campanhas, realizado principalmente por meio do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário. Na avaliação dele, o controle desses recursos pelas direções nacionais pode ampliar a influência dos presidentes sobre os candidatos e tornar mais difícil a entrada de novos políticos, especialmente daqueles sem apoio das estruturas tradicionais. O consultor considera que mudanças promovidas pela reforma política de 2018 já contribuíram para fortalecer as grandes legendas, e que o voto distrital misto poderia aprofundar essa tendência. Ele também aponta que a disputa por influência política e recursos públicos faz parte do contexto em que a proposta está sendo discutida.
A discussão ganhou força após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciar a intenção de avançar com o debate sobre a mudança ainda em 2026. A proposta prevê uma transição a partir de 2030, com implementação integral planejada para 2034, mas depende de negociações e aprovação de uma proposta de emenda à Constituição. Hummel avalia que a resistência não deverá ficar restrita ao PT e ao PL, podendo incluir partidos menores que temem perder espaço no novo modelo. A mudança, portanto, ainda divide interesses dentro do Congresso e levanta questões sobre representatividade, renovação política e distribuição de poder entre as lideranças partidárias.