A dívida bruta do governo atingiu R$ 10,9 trilhões em julho e passou a representar 82,5% de tudo o que o país produz em um ano. É o maior percentual desde abril de 2021, segundo dados divulgados nesta segunda-feira (31) pelo Banco Central (BC). A alta ocorre principalmente por causa dos juros acumulados sobre a dívida.
Na prática, o indicador mostra quanto o governo deve em relação ao tamanho da economia. Quando a dívida equivale a 82,5% do PIB, significa que, para cada R$ 100 produzidos pelo país em um ano, o governo tem uma dívida correspondente a R$ 82,50.
Em junho, a dívida representava 81,9% do PIB. Em apenas um mês, portanto, houve aumento de 0,6 ponto percentual.
Apesar da alta, o percentual ainda está abaixo do recorde da série histórica do Banco Central, de 87,7% do PIB, registrado em outubro de 2020, durante a pandemia.
Por que a dívida aumentou?
O principal motivo são os juros. Quando o governo tem uma dívida, precisa pagar juros sobre parte dos valores que tomou emprestado. Esses juros são incorporados ao estoque da dívida e fazem o total crescer.
Entre janeiro e julho deste ano, os juros acrescentaram 5,7 pontos percentuais à relação entre dívida e PIB. As novas emissões de títulos públicos contribuíram com mais 1,5 ponto.
Por outro lado, o crescimento da economia ajudou a reduzir o indicador em 3,1 pontos percentuais. Isso acontece porque a dívida é comparada ao tamanho do PIB: se a economia cresce, a mesma dívida passa a representar uma parcela menor dela.
A valorização do real também ajudou a diminuir o percentual em 0,3 ponto.
Com a combinação desses fatores, a dívida aumentou 3,9 pontos percentuais do PIB nos primeiros sete meses de 2026. Ela havia encerrado 2025 em 78,6%.
Dívida não é o mesmo que déficit
Os números podem parecer contraditórios porque o setor público teve superávit primário de R$ 1,4 bilhão em julho, enquanto a dívida continuou crescendo.
Isso acontece porque são indicadores diferentes.
O resultado primário compara quanto o governo arrecadou e quanto gastou, sem contar os juros da dívida. Em julho, o setor público arrecadou mais do que gastou nessa conta.
O Governo Central teve superávit de R$ 11 bilhões. Já estados e municípios registraram déficit de R$ 8,5 bilhões, enquanto as empresas estatais tiveram resultado negativo de R$ 1,1 bilhão.
Mesmo com o resultado positivo de julho, o setor público ainda acumulava déficit primário de R$ 89,3 bilhões nos 12 meses até julho, equivalente a 0,67% do PIB.
Juros passam de R$ 1 trilhão
O peso dos juros fica mais evidente quando analisado em um período maior.
Nos 12 meses encerrados em julho, o setor público pagou R$ 1,15 trilhão em juros, o equivalente a 8,67% do PIB. No mesmo período do ano anterior, a despesa havia sido de R$ 941,2 bilhões, ou 7,60% do PIB.
Somente em julho, os juros somaram R$ 99 bilhões. O valor foi menor que os R$ 109 bilhões registrados no mesmo mês de 2025.
Segundo o Banco Central, o resultado de julho foi beneficiado pelas operações de swap cambial, que geraram ganho de R$ 12,4 bilhões neste ano, contra uma perda de R$ 3,3 bilhões no mesmo mês do ano passado.
O que acontece quando os juros entram na conta?
Quando os juros são considerados junto com o resultado primário, chega-se ao chamado resultado nominal, que mostra de forma mais ampla a situação das contas públicas.
Em julho, o resultado nominal ficou negativo em R$ 97,6 bilhões. No acumulado de 12 meses, o déficit nominal chegou a R$ 1,24 trilhão, equivalente a 9,34% do PIB.
Ou seja: mesmo quando o governo consegue arrecadar mais do que gasta antes dos juros, o custo do endividamento pode fazer as contas públicas continuarem negativas.
Desde janeiro de 2023, início do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a dívida bruta passou de 71,4% para 82,5% do PIB. A diferença é de 11,1 pontos percentuais, resultado da combinação de juros, emissão de títulos, crescimento da economia e outros fatores que afetam o indicador.