O risco fiscal voltou a ganhar força entre instituições financeiras e se tornou novamente a principal preocupação para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro nos próximos três anos. O dado consta na Pesquisa de Estabilidade Financeira do terceiro trimestre, divulgada pelo Banco Central nesta quinta-feira (3).
A parcela das instituições que apontaram a situação das contas públicas como o risco mais importante passou de 27% em maio para 34% em agosto. Em fevereiro, o índice havia chegado a 37%.
Segundo o Banco Central, a preocupação está relacionada principalmente ao crescimento da dívida pública e ao déficit primário. O cenário ocorre em meio ao aumento do endividamento do governo e às discussões sobre a capacidade de estabilizar a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB).
Dados recentes do próprio BC apontaram que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 82,5% do PIB em julho, equivalente a R$ 10,9 trilhões. No mês anterior, o indicador estava em 81,9%. A Dívida Líquida do Setor Público também avançou e chegou a 69,1% do PIB, maior nível da série histórica.
Inadimplência também preocupa
Embora o risco fiscal seja o mais citado quando as instituições precisam escolher apenas uma ameaça, a inadimplência aparece como o principal risco quando os participantes podem apontar até três fatores.
A frequência das menções à inadimplência e à atividade econômica subiu pelo terceiro levantamento consecutivo. O indicador passou de 63 citações para cada 100 instituições em fevereiro para 72 em maio e 81 em agosto, maior resultado entre os riscos avaliados.
O Banco Central classificou como médio-alta a probabilidade de ocorrência desse risco e como alto o impacto potencial sobre o sistema financeiro.
A preocupação está associada ao elevado endividamento de famílias e empresas em um cenário de juros altos. Quando consideradas apenas as ameaças principais, 26% das instituições apontaram inadimplência e atividade econômica, contra 21% em maio e 24% em fevereiro.
Em julho, a inadimplência do Sistema Financeiro Nacional (SFN) chegou a 4,9%. Entre pessoas físicas, o índice foi de 5,8%. Nas operações com recursos livres destinadas aos consumidores, a taxa alcançou 7,8%.
As instituições também consideram elevada a alavancagem de famílias e empresas, embora tenha diminuído a preocupação com o chamado hiato de crédito, indicador que mede se a expansão do crédito está acima de sua tendência de longo prazo.
Confiança permanece elevada
Apesar do aumento das preocupações com as contas públicas e a inadimplência, a percepção geral sobre a estabilidade do sistema financeiro continua positiva.
O índice de confiança no Sistema Financeiro Nacional caiu de aproximadamente 71,8 pontos em maio para 71,2 pontos em agosto. Ainda assim, permanece em patamar elevado, segundo o levantamento.
A pesquisa ouviu 117 instituições, entre bancos, cooperativas, instituições de pagamento, gestoras de recursos, seguradoras e entidades fechadas de previdência complementar. A coleta de dados ocorreu entre 2 e 28 de julho.
Bancos defendem manutenção de colchão de capital
Outro ponto abordado pelo levantamento foi o Adicional Contracíclico de Capital Principal (ACCPBrasil), mecanismo que permite exigir dos bancos uma reserva adicional de capital em períodos de maior acúmulo de riscos.
Atualmente, o percentual está em 0%. Mesmo diante do avanço das preocupações com risco fiscal e inadimplência, 95% das instituições ouvidas esperam e recomendam a manutenção do índice nesse patamar.
Caso o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) decida elevar o percentual, as instituições terão de aumentar o capital próprio destinado à absorção de eventuais perdas e terão prazo de 12 meses para se adequar.