O Congresso Nacional do Brasil nasceu para representar a população, elaborar leis e fiscalizar os demais poderes. Em qualquer democracia sólida, parlamentos funcionam como ponte entre Estado e sociedade. No Brasil, porém, cresce uma percepção inquietante: parte expressiva da população não se sente representada por seus congressistas. Daí surge uma pergunta incômoda e cada vez mais presente no debate público: o Congresso é inimigo do povo?
A resposta exige equilíbrio. Não se trata de demonizar toda a instituição nem ignorar parlamentares sérios que atuam em favor do interesse coletivo. O ponto central é compreender por que tantas decisões do Legislativo parecem caminhar em sentido oposto às urgências sociais.
O sociólogo Pierre Bourdieu explicava que o poder também opera por mecanismos simbólicos: linguagem técnica, rituais fechados e estruturas que afastam o cidadão comum. Em muitos momentos, o Congresso brasileiro reproduz essa lógica. Debates complexos são conduzidos longe da população, enquanto negociações decisivas ocorrem nos bastidores.
Enquanto milhões de brasileiros enfrentam filas na saúde, desemprego, insegurança alimentar e transporte precário, a agenda parlamentar frequentemente é dominada por disputas internas, cargos estratégicos, liberação de emendas e acomodações partidárias. O problema não é a política em si, mas quando ela deixa de servir ao público para servir a si mesma.
Exemplos não faltam. Projetos de interesse social muitas vezes se arrastam por anos: medidas para reduzir desigualdades tributárias, fortalecer a escola pública, ampliar políticas habitacionais, modernizar o sistema de saúde e combater privilégios históricos. Já matérias de forte interesse corporativo ou eleitoral costumam avançar com velocidade maior.
O filósofo e historiador Michel Foucault analisava como o poder decide quem recebe proteção, investimento e oportunidade. No Legislativo, isso se manifesta no orçamento público. Toda escolha orçamentária revela prioridades. Quando faltam recursos para universidades, hospitais e saneamento, mas sobram verbas para arranjos políticos, o recado institucional é claro.
Já o filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe, ao formular o conceito de necropolítica, mostra como estruturas de poder podem empurrar populações inteiras para a vulnerabilidade. Quando periferias seguem esquecidas, juventudes permanecem sem perspectivas e regiões pobres convivem com abandono histórico, não se trata apenas de má gestão — trata-se de escolha política.
Também seria simplista afirmar que todos os males vêm do Congresso. O sistema político brasileiro carrega distorções antigas: campanhas caras, fragmentação partidária, dependência de alianças frágeis, pressão econômica organizada e baixa participação popular entre eleições. Muitos parlamentares operam dentro dessa engrenagem.
Por isso, talvez a pergunta correta não seja se o Congresso é inimigo do povo, mas quando ele se distancia de sua missão constitucional. Quando protege poucos e ignora muitos, age contra a sociedade. Quando fiscaliza abusos, aprova direitos e enfrenta desigualdades, honra seu papel republicano.
A democracia não termina no voto. Ela depende de vigilância constante, imprensa livre, cobrança popular e memória política. Um Congresso desconectado prospera no silêncio. Um Congresso pressionado pela cidadania tende a reencontrar sua função.
No fim, o maior adversário do povo não é necessariamente o Parlamento, mas a indiferença que permite sua deformação.