A praga sistêmica do radicalismo político

Quando a paixão vence a razão no jogo democrático

Quando se faz política com o baço e o rim, e não com a razão, o debate público deixa de ser uma construção intelectual e passa a ser conduzido pelos impulsos mais primitivos do ser humano. A pergunta que deveria inquietar uma sociedade democrática é: quando deixamos de discutir ideias e passamos a combater pessoas?

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A política nasceu como uma tentativa humana de organizar conflitos, estabelecer acordos e buscar caminhos coletivos. Mas o que acontece quando ela abandona a reflexão e se transforma em uma disputa movida por ressentimento, medo e necessidade de destruição do adversário?

O radicalismo político é uma velha enfermidade da humanidade. Ele muda de linguagem, veste novas bandeiras e encontra diferentes justificativas ao longo da história, mas mantém a mesma essência: a crença de que apenas um lado possui a verdade e que o outro representa uma ameaça que precisa ser silenciada.

O filósofo francês Michel Foucault demonstrou que o poder não está apenas nos governos ou nas instituições formais, mas também nos discursos que definem aquilo que uma sociedade considera verdadeiro, aceitável ou condenável. Diante disso, uma pergunta se torna inevitável: quem controla as narrativas políticas controla também a forma como enxergamos o mundo?

A polarização contemporânea ampliou esse fenômeno. As redes sociais transformaram opiniões em identidades e divergências em confrontos pessoais. Muitas vezes, o cidadão já não defende apenas uma ideia; ele passa a defender uma parte de si mesmo. E quando uma opinião se torna uma extensão da própria identidade, qualquer crítica parece uma agressão.

O filósofo Jürgen Habermas, ao defender a importância do diálogo racional na democracia, alertou para a necessidade de uma esfera pública baseada no argumento e não apenas na disputa emocional. Mas como construir consensos em uma época em que muitos preferem vencer uma discussão a compreender um problema?

A questão central talvez seja menos sobre quem está certo e mais sobre o que estamos nos tornando enquanto sociedade. Uma democracia pode sobreviver a opiniões diferentes, mas consegue sobreviver à incapacidade de reconhecer humanidade em quem pensa diferente?

O radicalismo não pertence a um único campo político. Ele aparece sempre que a convicção perde a humildade, quando a certeza individual tenta ocupar o lugar da verdade coletiva e quando o adversário deixa de ser visto como cidadão para ser tratado como inimigo.

A política feita apenas com paixão pode produzir multidões, mas dificilmente produz soluções. O desenvolvimento de uma sociedade exige algo mais difícil: maturidade para conviver com contradições, coragem para rever posições e inteligência para compreender que nenhum grupo possui o monopólio da verdade.

A maior ameaça do radicalismo talvez não seja a existência de ideias extremas, mas a destruição silenciosa da capacidade humana de dialogar. Porque uma democracia não morre apenas quando alguém tenta derrubá-la; ela também enfraquece quando seus próprios cidadãos deixam de acreditar que o outro lado merece ser ouvido.

A pergunta que fica para o nosso tempo é incômoda, mas necessária: estamos usando a política para transformar a sociedade ou estamos permitindo que a política transforme a sociedade em um permanente campo de batalha?

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