Acidentes de trânsito crescem no Piauí e avançam pelo interior

Estudo da UFPI aponta alta média anual de 5,72% nas internações

As internações por acidentes de transporte terrestre cresceram, em média, 5,72% ao ano no Piauí entre 2010 e 2023, segundo estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Doenças do Sertão (IDS), da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em parceria com o Centro de Inteligência em Agravos Tropicais, Emergentes e Negligenciados (CIATEN). A pesquisa analisou 80.251 internações registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e identificou concentração das ocorrências nas regiões Norte e Sul do Estado.

Foto: Reprodução
Estudo aponta crescimento das internações e maior concentração de acidentes no interior do Piauí.

Ao longo do período, a taxa média foi de 176,1 internações por 100 mil habitantes. Além do aumento no número de casos, os pesquisadores identificaram uma mudança na distribuição geográfica dos acidentes, com crescimento da ocorrência em municípios do interior.

Motociclistas foram as principais vítimas entre os pacientes internados. A taxa de hospitalização desse grupo foi 12 vezes maior que a registrada entre pedestres. Homens também representaram a maioria dos atendimentos, com frequência 4,4 vezes superior à das mulheres.

A faixa etária de 20 a 39 anos concentrou as maiores taxas, atingindo principalmente uma parcela da população em idade economicamente ativa.

Interiorização do problema

A análise espacial apontou agrupamentos de municípios com taxas elevadas de internação nas regiões Norte e Sul do Piauí. Para os pesquisadores, os dados indicam que os acidentes deixaram de estar associados principalmente aos grandes centros urbanos e passaram a representar um problema relevante também em cidades do interior.

A região de Carnaubais registrou a maior taxa identificada no levantamento, com 272,6 internações por 100 mil habitantes.

Os pesquisadores apontam que o cenário pode estar relacionado ao aumento da frota de veículos, especialmente motocicletas, ao fluxo de rodovias e às limitações de infraestrutura e fiscalização em parte dos municípios.

O perfil da frota ajuda a dimensionar o problema. Segundo dados utilizados na pesquisa, 52,1% dos domicílios piauienses possuem motocicletas, o segundo maior percentual do país.

Pressão sobre o sistema de saúde

Os acidentes também representam impacto para a rede pública de saúde. A letalidade hospitalar permaneceu em torno de 2,3% durante o período analisado, enquanto o tempo médio de internação foi de 4,9 dias.

Os custos acumulados das hospitalizações chegaram a aproximadamente R$ 128 milhões, em valores corrigidos pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M). Apesar disso, o valor médio pago por internação apresentou redução ao longo da série histórica.

Para Márcio Dênis Medeiros Mascarenhas, professor e orientador do estudo, identificar a origem dos pacientes, o perfil das vítimas e as regiões com maior concentração de casos pode ajudar no planejamento da assistência.

Segundo o pesquisador, essas informações podem orientar a distribuição de recursos, a organização da rede de atendimento a traumas e ações preventivas direcionadas aos grupos e localidades mais expostos.

Dados para orientar prevenção

O levantamento foi publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia e reúne análises epidemiológica, territorial e de utilização dos serviços de saúde. Para os pesquisadores, os resultados podem contribuir para o planejamento de políticas públicas voltadas à prevenção de acidentes e à estruturação da assistência hospitalar no Estado.

A pesquisa também destaca a necessidade de considerar as diferenças regionais ao definir medidas de segurança viária, já que a concentração de internações varia entre os territórios piauienses.

O artigo está disponível em acesso aberto na Revista Brasileira de Epidemiologia, sob o DOI 10.1590/1980-549720260044.

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