Teresina vive uma contradição que já não pode ser tratada como episódio isolado: falta água em diferentes regiões da cidade, enquanto a energia elétrica pesa cada vez mais no orçamento das famílias. No momento em que o calor transforma água e eletricidade em necessidades ainda mais essenciais, o consumidor enfrenta uma equação perversa: paga por serviços indispensáveis e, quando eles falham ou encarecem, também precisa pagar para tentar compensar a deficiência.
Nas últimas semanas, as reclamações sobre o abastecimento se multiplicaram. Na zona Sudeste de Teresina, moradores dos bairros Bom Princípio e Deus Quer relataram cinco dias sem água. Segundo a Águas de Teresina, dois poços foram afetados por uma ocorrência eletromecânica, com a adoção de medidas emergenciais para reduzir os impactos. O episódio, entretanto, não pode ser analisado apenas como uma ocorrência técnica. A população precisa de continuidade, previsibilidade e resposta rápida para um serviço essencial.
A situação também se repete em outros municípios. Em Parnaguá, o Ministério Público cobrou explicações da concessionária sobre interrupções sucessivas no abastecimento. Em Várzea Branca e Campo Alegre do Fidalgo, o MPPI chegou a ajuizar ações para buscar a regularização do serviço. A pressão institucional demonstra que o problema ultrapassou a esfera da reclamação individual.
A Águas do Piauí assumiu a concessão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário em praticamente todo o Estado, por meio de um contrato de longo prazo. Por isso, a discussão não pode se limitar ao volume de investimentos anunciados. É preciso acompanhar metas, qualidade, continuidade, fiscalização e resultados concretos para a população.
E existe uma segunda conta chegando à mesma família: a energia elétrica.
Em dezembro de 2025, o reajuste da Equatorial Piauí produziu efeito médio de 13,57% para os consumidores, segundo a ANEEL. Na baixa tensão, faixa que abrange os consumidores residenciais, o impacto médio chegou a 13,61%. Em setembro de 2026, a ANEEL informou ainda que o efeito médio acumulado dos reajustes tarifários no país alcançava 9,4% no ano.
O problema é que o consumidor residencial não escolhe livremente de quem comprar sua energia. A tarifa é regulada nacionalmente. Portanto, não cabe ao governador simplesmente determinar uma redução tarifária. Isso, porém, não significa que o Governo do Piauí esteja condenado à passividade.
É justamente aí que falta uma política pública mais ousada.
O Estado poderia criar um programa de proteção energética para trabalhadores de baixa e média renda, articulado com a União, os municípios, a ANEEL e a distribuidora. Não se trata de tabelar a tarifa, mas de reduzir o impacto da energia no orçamento de famílias que não necessariamente estão em situação de extrema pobreza, mas já comprometem parcela significativa da renda com serviços essenciais.
O Brasil já possui a Tarifa Social, que garante gratuidade para o consumo de até 80 kWh mensais às famílias que atendem aos critérios legais. O desafio também está naquele trabalhador que ganha acima dos limites dos programas sociais, mas não consegue absorver aumentos sucessivos de despesas com água, energia, alimentação, aluguel e transporte.
É esse cidadão que precisa entrar no centro da discussão.
O Piauí tem uma vantagem que poucos Estados possuem em escala semelhante: sol. A geração solar distribuída pode ser utilizada como instrumento de política social, com incentivo à instalação de sistemas em residências de famílias de menor renda, programas de eficiência energética e substituição de equipamentos antigos por modelos mais econômicos.
Também é possível ampliar a capacidade de escolha do consumidor. A própria ANEEL já possui modalidades como a Tarifa Branca, que permite, em determinadas condições, preços diferentes conforme o horário de consumo. O próximo passo deveria ser ampliar mecanismos que permitam ao cidadão controlar melhor sua despesa energética.
Não basta dizer ao trabalhador para economizar energia em uma cidade como Teresina. Em períodos de calor intenso, ventilador, geladeira e ar-condicionado deixam de ser vistos apenas como itens de conforto e passam a representar necessidades cada vez mais presentes no cotidiano das famílias.
Água e energia, portanto, não podem continuar sendo discutidas como problemas isolados.
Quando falta energia, sistemas de bombeamento podem ser afetados. Quando falta água, a família procura alternativas e assume novos custos. Quando a energia fica mais cara, aumenta a despesa doméstica. No fim, o mesmo trabalhador paga pela deficiência do serviço e pela tentativa de compensá-la.
O Governo do Piauí deveria transformar essa realidade em uma agenda pública: proteção ao consumidor, incentivo à energia solar para famílias, eficiência energética, fiscalização rigorosa do saneamento e articulação com o Governo Federal para ampliar mecanismos de redução do peso da conta de energia.
O Piauí tem sol suficiente para produzir energia. Tem conhecimento técnico, instituições de fiscalização e uma população que trabalha todos os dias para sustentar suas famílias.
O que não pode continuar é o trabalhador ter de escolher entre pagar a luz, comprar água ou colocar comida na mesa.
Serviço essencial não pode consumir a dignidade de quem vive do próprio salário.