Antes de se firmar como empresário, ele começou vendendo redes, mantas e utensílios domésticos no comércio informal. Foi desse ponto de partida que migrou para o ramo de joias, setor em que hoje atua como joalheiro. Essa passagem do camelô ao empreendedor consolidado virou a espinha dorsal do discurso com que se apresenta ao eleitorado: alguém que prosperou pelo próprio esforço, sem herança política nem estrutura partidária tradicional por trás.
Casado e pai de quatro filhos, ele reforça publicamente que conhece na prática o peso do trabalho e costuma questionar o papel do Estado como solucionador de todos os problemas, um discurso que tende a repercutir entre eleitores que se identificam com dificuldades semelhantes.
Visibilidade construída fora da política tradicional
Parte relevante da projeção de Cachorro vem de sua atuação como comentarista da IEL TV e do IELCast, espaço onde construiu audiência crítica ao governo federal e ao establishment político local antes mesmo de oficializar a candidatura. Ele soma cerca de 52,5 mil seguidores no Instagram, rede que hoje funciona como principal vitrine da campanha.
Sem qualquer mandato anterior, ele adotou como estratégia a proximidade direta com o eleitor: percorre municípios de norte a sul do estado, ampliando articulações locais. O discurso que sustenta essa movimentação é o de uma candidatura que nasceria fora dos círculos tradicionais da política piauiense, ocupando um espaço identificado como carente de representação de direita no estado.
O que dizem os números
Pesquisas ajudam a dimensionar esse fenômeno sem exagerá-lo. Em levantamento do Instituto IPPI, de novembro de 2025, Cachorro já aparecia na lembrança espontânea do eleitorado para deputado federal, ainda que com um índice baixo, de 0,23%. Dado semelhante apareceu em pesquisa do Instituto Amostragem, realizada entre 7 e 12 de julho de 2026, que mediu 0,18% de intenção de voto para ele.
O contexto desses números importa: cerca de 76% dos eleitores piauienses ainda não sabem em quem votar para a Câmara Federal, segundo a pesquisa do Amostragem, e o desemprego e a falta de renda aparecem como principal problema do estado para cerca de um terço da população. É justamente nesse cenário de indefinição e insatisfação econômica que discursos de perfil empresarial e antissistema costumam ganhar espaço, ainda que a eleição proporcional torne o resultado final dependente de coligações e do quociente eleitoral, não apenas da intenção de voto medida meses antes do pleito.
Um teste para o eleitorado
A ascensão de Cachorro é frequentemente descrita como sintoma de uma mudança mais ampla na política piauiense: a de um eleitorado, sobretudo do interior e da periferia, cada vez menos disposto a aceitar o perfil clássico do político profissional e mais atraído por figuras que dizem validar suas próprias frustrações. O desafio, no entanto, é conhecido: transformar engajamento nas redes sociais em estrutura de campanha e votos nas urnas, num estado onde nomes como os do governador Rafael Fonteles e do ex-governador Wellington Dias ainda concentram aprovação e uma máquina política consolidada.