Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) revelou que o desmatamento é responsável por 74,5% da redução das chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura na Amazônia durante os meses de seca. O estudo, que analisou dados de 35 anos e 2,6 milhões de km² da Amazônia Legal, trouxe pela primeira vez a separação quantitativa dos efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas globais sobre o bioma.
Os pesquisadores observaram uma queda anual de cerca de 21 mm nas chuvas da estação seca, sendo 15,8 mm atribuídos diretamente à perda da cobertura florestal. A temperatura máxima aumentou aproximadamente 2 °C, com o desmatamento respondendo por 16,5% desse aumento. Segundo os autores, os impactos do desmatamento são especialmente severos nos estágios iniciais, quando se perde entre 10% e 40% da floresta, reforçando a urgência da preservação para manter a resiliência climática.
O estudo também destacou o papel essencial da Amazônia na regulação do clima regional e global, especialmente por meio dos “rios voadores” que redistribuem a umidade para outros biomas. A degradação da floresta altera esse ciclo, intensificando a estação seca, aumentando os incêndios florestais e prejudicando a biodiversidade. Entre 1985 e 2023, a Amazônia perdeu 14% de sua vegetação nativa, principalmente por conversão em pastagens.
Com base em modelos estatísticos e dados de sensoriamento remoto, os cientistas alertam que a continuidade do desmatamento agravará a redução das chuvas e o aumento da temperatura, comprometendo a estabilidade do ecossistema. O estudo também ressalta que as mudanças climáticas globais, impulsionadas pelas emissões de gases de efeito estufa, também afetam a floresta, mas o impacto local do desmatamento é um fator decisivo para a saúde do bioma.