Uma das aves mais raras da Caatinga voltou a nascer em liberdade após mais de um século sem registros reprodutivos na região da Serra das Almas, entre Ceará e Piauí. O nascimento de filhotes do periquito-cara-suja foi anunciado por pesquisadores como um marco para a conservação ambiental no semiárido brasileiro.
Os primeiros filhotes nasceram em março deste ano dentro da Reserva Natural Serra das Almas, resultado de um projeto de reintrodução iniciado em 2024 para recuperar a espécie, considerada ameaçada de extinção.
Conhecido cientificamente como Pyrrhura griseipectus, o periquito-cara-suja é uma ave típica da Caatinga nordestina, reconhecida pela plumagem verde e pela mancha escura ao redor do rosto. Ao longo das últimas décadas, o avanço do desmatamento, a perda de habitat e o tráfico de animais silvestres reduziram drasticamente a população da espécie.
Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, a reprodução em ambiente natural ocorreu menos de um ano após a soltura das aves reabilitadas na reserva. O resultado foi considerado acima das expectativas da equipe responsável.
Antes da reintrodução, os animais passaram por exames veterinários, quarentena e adaptação em viveiros preparados para estimular comportamento natural, fortalecimento do voo e interação social entre os bandos.
Na reserva, também foram instaladas caixas-ninho que simulam cavidades de árvores usadas pela espécie para reprodução. Em fevereiro, os pesquisadores encontraram 33 ovos nos ninhos artificiais — um número considerado expressivo para uma população ainda pequena.
Atualmente, cerca de 23 aves adultas vivem soltas na área de conservação. A expectativa é que a população aumente gradualmente, embora especialistas alertem que a sobrevivência da espécie ainda depende da preservação contínua da vegetação nativa da Caatinga.
Além do monitoramento ambiental, o projeto também envolveu comunidades do entorno da reserva em ações de proteção e educação ambiental, numa tentativa de reduzir riscos ligados à caça ilegal e à degradação ambiental.
Para os pesquisadores, o reaparecimento da espécie simboliza um avanço importante para a conservação do bioma, considerado um dos menos protegidos do país.