Escassez crônica leva mundo a era de “falência hídrica”, aponta estudo

Relatório indica que sistemas de água doce já não se recuperam; quase metade da população enfrenta falta severa ao menos um mês por ano

O mundo entrou em uma fase de “falência hídrica”, marcada pelo uso contínuo de água doce além da capacidade de reposição da natureza, agravado pelas mudanças climáticas. A conclusão é de um estudo do Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde, que aponta a incapacidade crescente de rios, aquíferos e zonas úmidas retornarem às condições históricas, transformando crises temporárias em um quadro crônico.

Foto: Bruno Kelly/Reuters
Escassez crônica leva mundo a era de “falência hídrica”, aponta estudo

O diagnóstico ajuda a explicar por que cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano. Os efeitos já são visíveis em diferentes continentes, com reservatórios vazios, cidades afundando, perdas agrícolas, racionamentos e aumento de incêndios florestais e tempestades de poeira.

Segundo o estudo, a falência hídrica ocorre quando uma região passa a consumir mais água do que a natureza consegue repor de forma confiável e quando os danos aos “ativos naturais” — como aquíferos e áreas úmidas — se tornam difíceis ou impossíveis de reverter. Não se trata apenas de falta momentânea, mas de um colapso estrutural dos sistemas de abastecimento.

Os exemplos se multiplicam. Em Teerã, secas sucessivas e a exploração excessiva dos recursos hídricos esgotaram reservatórios estratégicos, elevando tensões políticas. Nos Estados Unidos, a demanda já supera a oferta do rio Colorado, fonte essencial de água potável e irrigação para sete estados. Na América Latina, a seca histórica no rio Madeira expôs comunidades ribeirinhas a longas caminhadas por bancos de areia em busca de água.

O relatório descreve uma trajetória semelhante à de uma falência financeira. Primeiro, recorre-se a soluções emergenciais — poços mais profundos, bombas mais potentes, transposição entre bacias. Com o tempo, surgem os custos ocultos: lagos que encolhem ano após ano, rios que se tornam sazonais e a intrusão de água salgada nos aquíferos. Em cidades como a Cidade do México, a superexploração das águas subterrâneas provocou subsidência do solo de até 25 centímetros por ano, um processo irreversível.

A escala do problema é global. A extração excessiva de água subterrânea já contribuiu para o afundamento do solo em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, afetando áreas urbanas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Na Ásia, cidades como Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh enfrentam riscos semelhantes.

A agricultura, responsável por cerca de 70% do consumo mundial de água doce, é um dos setores mais expostos. Aproximadamente 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção global de alimentos estão concentradas em regiões onde a capacidade de armazenamento de água está em declínio. Mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de terras irrigadas já operam sob estresse hídrico alto ou muito alto, ameaçando a segurança alimentar.

As mudanças climáticas intensificam o cenário. Secas mais longas, frequentes e severas atingiram cerca de 1,8 bilhão de pessoas entre 2022 e 2023. O aquecimento global reduz a precipitação em diversas regiões, aumenta a demanda hídrica das lavouras, eleva o consumo de energia para bombeamento e acelera o derretimento de geleiras, importantes reservas naturais de água doce.

Além disso, o mundo perdeu mais de 4,1 milhões de quilômetros quadrados de zonas úmidas naturais em cinco décadas. Esses ecossistemas são fundamentais não apenas para armazenar água, mas também para filtrá-la, reduzir inundações e sustentar a biodiversidade. A poluição, a salinização do solo e a intrusão de água salgada agravam a perda de qualidade da água disponível.

Apesar do quadro, a retirada de água segue crescendo para sustentar a expansão urbana, agrícola, industrial e, mais recentemente, de centros de processamento de dados ligados à inteligência artificial. Embora nem todas as bacias estejam em falência hídrica, o estudo alerta que elas são interligadas por comércio, migração e clima, o que tende a espalhar pressões e ampliar conflitos.

Para os autores, a resposta exige uma mudança de paradigma semelhante à de um ajuste financeiro. O primeiro passo é reconhecer que o “balanço” está no vermelho e estabelecer limites de uso compatíveis com a disponibilidade real. Proteger zonas úmidas, restaurar rios e solos e gerir a recarga dos aquíferos tornam-se medidas centrais. Também será necessário reduzir o consumo de forma justa, com proteção social e apoio a agricultores, além de investir em monitoramento por satélite para antecipar riscos.

A conclusão é direta: a água deixou de ser um recurso com crédito ilimitado. Ou a humanidade redesenha cidades, sistemas alimentares e economias para viver dentro de limites hidrológicos mais restritos, ou a falência hídrica se tornará o novo normal.

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