Casos de abuso sexual infantil online crescem 25% no Brasil em 2025

Um em cada três autores é adolescente, segundo levantamento nacional.

Os registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil cresceram 25,3% no Brasil em 2025, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no último dia 23. Pela primeira vez, o levantamento analisou esse tipo de crime de forma específica e identificou características próprias da violência praticada em ambientes digitais, incluindo a participação de adolescentes entre os autores.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes

De acordo com o estudo, foram registrados 4.063 casos envolvendo vítimas de até 17 anos em 2025, frente aos 3.280 contabilizados no ano anterior. Entre jovens de 18 e 19 anos, as ocorrências passaram de 181 para 265.

Um dos principais pontos destacados pelo relatório é o perfil dos investigados. Em 34,2% dos registros, os autores são adolescentes, o equivalente a um em cada três casos. A maior parte das ocorrências, 86,5%, envolve apenas autores do sexo masculino. Casos com apenas mulheres representam 9,1%, enquanto 4,4% tiveram participação de mais de um autor.

Segundo o coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Cauê Martins, os dados indicam que, em muitos episódios, vítimas e autores pertencem à mesma faixa etária.

O anuário atribui parte desse cenário à ampliação do acesso de crianças e adolescentes às redes sociais, aplicativos de mensagens e comunidades virtuais que disseminam conteúdos relacionados à misoginia, à sexualização precoce e à radicalização online.

As meninas representam 84,2% das vítimas registradas, enquanto 78,3% têm entre 12 e 17 anos. A faixa de 14 e 15 anos concentra o maior número de casos, seguida pelos grupos de 12 e 13 anos, de 16 e 17 anos e de 9 a 11 anos.

Para os pesquisadores, a expansão das tecnologias digitais modificou as formas de interação entre crianças e adolescentes e criou novos desafios para a proteção desse público. O relatório afirma que práticas como aliciamento, produção, posse e compartilhamento de material de abuso sexual infantil passaram a ocupar posição central entre as formas de violência sexual no ambiente virtual.

O estudo também defende a adoção de mecanismos de regulação das plataformas digitais. Na avaliação dos pesquisadores, a demora na implementação dessas medidas favoreceu a consolidação de espaços virtuais onde persistem diferentes formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres.

Além dos crimes praticados no ambiente digital, o anuário aponta crescimento das ocorrências de violência contra crianças e adolescentes dentro de casa. Os registros de maus-tratos, abandono de incapaz e abandono material praticamente dobraram desde 2021.

O crime de maus-tratos apresentou a maior variação no período. Em 2025, foram registrados 38.986 casos, número 14,6% superior ao de 2024 e 106,1% acima do verificado em 2021. Mais da metade das vítimas, 59,1%, tinha entre zero e nove anos de idade.

Os registros de abandono de incapaz somaram 14.815 ocorrências, avanço de 18,5% em relação ao ano anterior. Já os casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra vítimas de até 17 anos passaram de 20.911 para 21.811. Entre jovens de 18 e 19 anos, houve redução nas notificações.

Para Cauê Martins, os números refletem a permanência de uma cultura que ainda utiliza a violência física como forma de disciplina, apesar dos avanços promovidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

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