Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram uma estratégia experimental que pode ampliar a segurança da reposição hormonal durante a menopausa. Em vez de administrar estrogênio de forma ampla, o método ativa seletivamente o receptor de estrogênio beta (ERβ), associado à regulação metabólica e sem estímulo aos tecidos reprodutivos no modelo estudado.
A pesquisa foi conduzida no Instituto de Química da USP com ratas submetidas à retirada dos ovários, procedimento utilizado para reproduzir características da queda hormonal observada na menopausa. Os animais receberam uma droga experimental capaz de ativar especificamente o ERβ.
Segundo os pesquisadores, a redução do estrogênio pode provocar mudanças importantes no metabolismo. Entre elas estão maior acúmulo de gordura visceral, resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento do risco cardiovascular.
A terapia hormonal tradicional busca compensar essa queda com estrogênio, progesterona ou a combinação dos dois, administrados por diferentes formas, como comprimidos, adesivos e cremes. A atuação ampla sobre os receptores hormonais, porém, pode estimular tecidos sensíveis ao estrogênio.
A pesquisadora Débora Santos Rocha, bolsista de pós-doutorado da FAPESP no Instituto de Química da USP e primeira autora do estudo, explica que a proposta é direcionar a ação hormonal para uma via específica.
“É uma estratégia mais pontual. Ao agir apenas nesse receptor, conseguimos reequilibrar os efeitos metabólicos da queda do estrogênio durante a menopausa sem afetar áreas possivelmente sensíveis do organismo”, afirma.
Os resultados indicaram melhora em diferentes parâmetros metabólicos. As ratas tratadas apresentaram normalização da glicemia de jejum e do perfil de gorduras no sangue, além de redução no tamanho das células adiposas.
Também foram observadas mudanças nas ilhotas pancreáticas, estruturas responsáveis pela produção de insulina e outros hormônios. Segundo os pesquisadores, elas recuperaram características consideradas normais após a ativação do ERβ.
Efeito no fígado
O fígado foi um dos principais focos da investigação. A redução do estrogênio altera a maneira como o órgão processa as gorduras, favorecendo o acúmulo de lipídios e mudanças nos níveis de colesterol e outros componentes presentes na circulação.
No experimento, a ativação do ERβ reverteu essas alterações. O estudo também analisou hepatócitos, células que compõem o fígado, e verificou aumento da oxidação de ácidos graxos — processo pelo qual essas moléculas são utilizadas para gerar energia.
Para Alicia Kowaltowski, professora do Instituto de Química da USP e coordenadora da pesquisa, os resultados apontam para uma ação metabólica abrangente sem alterações no útero das cobaias.
“Restauramos a glicemia de jejum, normalizamos o perfil lipídico e reduzimos o tamanho das células de gordura”, afirma.
A pesquisadora ressalta que a proposta não significa que a terapia hormonal convencional provoque câncer. O risco está relacionado à possibilidade de células tumorais já existentes em tecidos sensíveis aos hormônios responderem ao estrogênio e terem seu crescimento estimulado.
O trabalho foi publicado na revista Comprehensive Physiology. Por enquanto, os resultados são experimentais e foram obtidos em animais. A estratégia ainda precisa ser investigada em outras etapas antes de qualquer conclusão sobre sua segurança e eficácia em mulheres.