Câncer cresce entre adultos jovens, e causas ainda intrigam especialistas

Aumento antes dos 50 anos envolve tumores distintos e pode ter múltiplos fatores

O número de diagnósticos de câncer entre adultos com menos de 50 anos tem aumentado nas últimas décadas, em um fenômeno observado em diferentes países e que ainda não tem uma causa única identificada. Embora a doença continue mais frequente entre pessoas mais velhas, a incidência nessa faixa etária vem crescendo de forma sustentada desde os anos 1990.

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Rastreamento e diagnóstico precoce ajudam a identificar alterações que podem indicar câncer

Pessoas com menos de 50 anos foram a única faixa etária a apresentar aumento contínuo da incidência entre 1995 e 2021. Alguns dos avanços mais expressivos ocorreram entre adultos abaixo dos 40 anos.

O crescimento envolve diferentes tipos de tumores, entre eles os de cólon e reto, mama, endométrio, rim, pâncreas, estômago e tireoide.

Fatores em investigação

Especialistas avaliam que o fenômeno provavelmente resulta da combinação de fatores ambientais, metabólicos e comportamentais acumulados desde fases mais precoces da vida.

Entre as principais hipóteses estão o aumento da obesidade e de alterações metabólicas, o sedentarismo, mudanças nos padrões alimentares, consumo de álcool e maior exposição a determinados poluentes e substâncias presentes no ambiente.

Outro campo estudado é o microbioma intestinal, formado pelos microrganismos que vivem no sistema digestivo. Pesquisas encontraram diferenças na composição e no metabolismo das bactérias intestinais de pacientes que desenvolveram câncer colorretal antes dos 50 anos.

Alimentação, obesidade e uso de antibióticos podem alterar o microbioma. Ainda não está estabelecido, porém, se essas mudanças contribuem diretamente para o desenvolvimento do câncer ou se são consequência parcial da própria doença.

Diagnóstico explica o aumento?

O avanço dos exames e a utilização de métodos diagnósticos mais sensíveis podem explicar parte do crescimento. Esse efeito é especialmente observado em tumores como os de tireoide, que podem ser identificados incidentalmente durante exames realizados por outros motivos.

A hipótese, entretanto, não explica todo o fenômeno. Há pacientes jovens que chegam ao diagnóstico com tumores em estágio avançado, e também foram observados aumentos em tipos de câncer para os quais não existe rastreamento populacional nessa idade, como o de pâncreas.

Esses dados reforçam a possibilidade de uma mudança real no perfil epidemiológico da doença, e não apenas de maior detecção ou sobrediagnóstico.

Papel da genética

O diagnóstico de câncer em idade jovem também pode levantar a possibilidade de predisposição hereditária. Algumas síndromes genéticas, como Lynch, polipose adenomatosa familiar e Li-Fraumeni, além de alterações hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2, estão associadas ao desenvolvimento precoce de determinados tumores.

Essas alterações, contudo, respondem por apenas uma parcela dos casos e não explicam sozinhas o aumento observado entre adultos jovens.

Quando identificadas, as mutações hereditárias podem orientar aconselhamento genético e estratégias específicas de acompanhamento para o paciente e seus familiares.

Desafio para o rastreamento

O aumento de casos também coloca em discussão as estratégias de rastreamento. A maioria das recomendações atuais é direcionada a faixas etárias mais avançadas, deixando grande parte dos adultos jovens fora dos programas populacionais.

No câncer colorretal, por exemplo, o rastreamento de pessoas com risco habitual começa aos 45 anos. Antecipar exames para toda a população jovem, porém, não é considerado uma solução simples. A medida ampliaria o número de pessoas submetidas a exames, procedimentos e investigações que, na maioria dos casos, não resultariam em um diagnóstico de câncer.

Uma das possibilidades em estudo é identificar grupos com maior risco para estabelecer estratégias de acompanhamento mais precoces e direcionadas.

Enquanto isso, sintomas persistentes em adultos jovens não devem ser atribuídos automaticamente à idade. A avaliação médica pode ser necessária quando alterações no organismo permanecem ou se repetem.

Impacto ao longo da vida

O diagnóstico precoce também tem consequências que vão além do tratamento da doença. Quando ocorre aos 30 ou 40 anos, o câncer pode interferir por décadas na vida do paciente.

Cirurgias, quimioterapia, imunoterapia e outros tratamentos podem afetar a capacidade funcional, fertilidade, sexualidade, planejamento familiar e trajetória profissional. O impacto também pode envolver aspectos emocionais e sociais.

Para a oncologia, entender por que determinados tipos de câncer estão surgindo mais cedo é, portanto, uma questão que envolve prevenção, diagnóstico e tratamento. Embora ainda não exista uma explicação definitiva, a identificação dos fatores associados ao fenômeno pode ajudar a desenvolver estratégias mais eficazes para reduzir riscos e detectar a doença precocemente.

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