Piauí amplia formação acadêmica, mas segue sem aproveitar pesquisadores

Brasil ultrapassa um milhão de mestres e mais de 300 mil doutores, mas baixa integração entre ciência e gestão pública revela gargalo estrutural no aproveitamento do conhecimento

O Brasil vive uma expansão contínua na formação de pesquisadores em nível de pós graduação. Dados consolidados do estudo “Brasil: Mestres e Doutores 2024” (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos CGEE, 2024) indicam que o país já ultrapassou a marca de 1.001.861 mestres e 319.211 doutores titulados entre 1996 e 2021.

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O ritmo de formação também se mantém elevado. De acordo com o mesmo levantamento do CGEE, em 2024 o país passou a registrar uma média anual superior a 60 mil novos mestres e mais de 25 mil doutores por ano, consolidando um crescimento expressivo na produção científica nacional. Em duas décadas, o número de doutores cresceu cerca de 271% e o de mestres aproximadamente 210%.

Apesar desse avanço quantitativo, o Brasil ainda apresenta baixa densidade de doutores por habitante. Dados do próprio CGEE e de indicadores educacionais internacionais apontam média aproximada de 10 doutores para cada 100 mil habitantes, índice inferior ao de países centrais em inovação científica.

No recorte regional, o Nordeste acompanha essa expansão, mas de forma desigual. A interiorização da pós graduação ampliou o acesso à formação stricto sensu, porém sem garantir, na mesma proporção, mecanismos estruturais de absorção desses profissionais em políticas públicas e inovação.

No Piauí, o cenário também reflete esse descompasso. O estado ampliou significativamente o número de mestres e doutores nas últimas décadas, com crescimento impulsionado por programas da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), conforme registros institucionais e dados de expansão da pós graduação na região Nordeste. Ainda assim, a incorporação desses profissionais em estruturas de gestão e desenvolvimento segue limitada.

Nesse contexto, a trajetória do professor-pesquisador, jornalista, psicanalista, relações públicas, bacharel em Turismo e estrategista de marketing Márcio Felipe Rocha exemplifica um padrão recorrente de alta qualificação acadêmica com baixa absorção institucional.

Desde 2014, atua na Universidad Tecnológica Intercontinental (UTIC), em Assunção, Paraguai, onde construiu sua formação em Ciências da Educação. O mestrado foi concluído com aprovação sem ressalvas, indicador de desempenho acadêmico consistente dentro dos parâmetros da instituição.

Em 2018, obteve nota máxima e foi reconhecido com distinção pela melhor dissertação na área de TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), no segmento da Educação, campo diretamente vinculado às transformações tecnológicas aplicadas aos processos educativos.

O título de mestre foi validado no Brasil em junho de 2025 pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES), por meio da Plataforma Carolina Bori e do Ministério da Educação, sistema que exige análise rigorosa de equivalência acadêmica de diplomas estrangeiros.

Além da formação, o pesquisador acumula produção científica publicada em periódicos do Mercosul e em revistas internacionais, com inserção em diferentes áreas da ciência aplicada e da educação tecnológica. Entre essas produções estão artigos científicos publicados na Revista Científica Arandú (Paraguai), periódico acadêmico voltado à divulgação de pesquisas na América Latina.

Nesse conjunto, destaca-se também a participação na Revista Iberoamericana de Automática e Informática Industrial (RIAI), publicação científica de acesso aberto e órgão oficial do Comitê Espanhol de Automática (CEA), voltada à teoria de controle, robótica, automação e informática industrial.

Esse volume de produção amplia a atuação acadêmica para redes científicas internacionais, conectando educação, tecnologia e sistemas computacionais em diferentes idiomas e contextos.

Apesar disso, o problema central permanece estrutural: a baixa capacidade do Estado de transformar produção científica em política pública aplicada.

Especialistas apontam que, embora o Brasil tenha ampliado de forma significativa a formação de mestres e doutores, a inserção desses profissionais em estruturas de decisão ainda é limitada. Na prática, isso mantém uma distância entre o conhecimento produzido nas universidades e sua aplicação direta na gestão pública e no desenvolvimento econômico.

No campo da educação, onde se insere a pesquisa de doutorado em andamento com foco em inteligência artificial e transumanismo, essa lacuna se torna ainda mais sensível. A velocidade das transformações tecnológicas pressiona sistemas educacionais que ainda operam sob modelos tradicionais.

Em fase final de doutorado, com defesa prevista para julho, há relatos de intensa dedicação à pesquisa, com longos períodos de produção intelectual, frequentemente concentrados em horários noturnos, em função de um padrão de hiperfoco aplicado ao trabalho acadêmico.

O próprio pesquisador, Márcio Felipe da Rocha e Silva, resume o percurso como um processo contínuo de construção intelectual: “Estou na fase de defesa do doutorado e essa trajetória sempre foi movida por hiperfoco. Desde a infância, quando improvisava experimentos em casa inspirado em personagens como o Professor Pardal, percebi que a curiosidade era o eixo central da minha vida. Eu não vejo o sonho como algo concluído. Enquanto há vida, há sonho, e é isso que mantém o movimento da existência.”

O interesse pela investigação científica remonta à infância, quando realizava experimentos caseiros com equipamentos eletrônicos.

Em reflexão amplamente difundida no campo educacional, o professor e historiador Leandro Karnal sintetiza: “Conhecimento sem transformação é apenas erudição acumulada.”

Karnal também observa que “a educação é a única forma de mudar o mundo sem violência”, destacando o papel estrutural da formação na reorganização das sociedades contemporâneas.

Como observa o pensador contemporâneo Edgar Morin, “o conhecimento não é um espelho do real, mas uma tradução e reconstrução do real pelo pensamento humano”, conforme discutido em sua obra O Método.

O caso analisado evidencia, portanto, um descompasso persistente: o Estado forma, certifica e reconhece, mas ainda falha em transformar conhecimento em política pública estruturada.

Sem uma política consistente de integração entre academia e gestão pública, o resultado tende a se repetir: ampliação da produção científica e limitação do seu uso estratégico no desenvolvimento regional.

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