Piauí envelhece mais rápido e reduz parcela jovem da população

Idosos passaram de 11% para 16% dos piauienses em 13 anos, pressionando saúde e previdência

Em 2012, mais da metade dos piauienses tinha menos de 30 anos. Em 2025, essa fatia encolheu para menos de 43% da população. No mesmo período, o grupo de idosos com 60 anos ou mais cresceu 50%, indo de 363 mil para 546 mil pessoas, e hoje representa 16% dos 3,38 milhões de habitantes do estado. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) do IBGE, divulgada na última sexta-feira (17), e revelam uma mudança estrutural na pirâmide etária do Piauí.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Piauí teve aumento na velocidade do processo de envelhecimento da população

A transformação não é exclusiva do estado. No Brasil, a fatia de jovens de 0 a 29 anos chegou a 41,4% da população em 2025, ligeiramente abaixo do índice piauiense de 42,5%. A população de 60 anos ou mais alcançou 16,6% no país, proporção também próxima à do Piauí. A diferença está na velocidade, o estado nordestino partiu de uma base mais jovem e chegou ao patamar nacional em pouco mais de uma década.

A tendência já havia sido identificada pelo Censo Demográfico de 2022, que mostrou que a população piauiense com 65 anos ou mais cresceu 189% em quatro décadas, saltando de 3,7% em 1980 para 10,7% do total em 2022. Os novos dados da PNADC confirmam que esse processo acelerou.

Esse movimento está diretamente ligado à redução no número médio de filhos por mulher. Dados recentes do IBGE indicam que a taxa de fecundidade no Brasil já está abaixo do nível de reposição (2,1 filhos por mulher), e no Nordeste a queda foi uma das mais intensas nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida ao nascer avançou de forma consistente, ampliando o contingente de idosos e prolongando o tempo de permanência nessa faixa etária.

Apesar do avanço rápido do envelhecimento, a estrutura de acolhimento institucional no estado permanece limitada. Dados do próprio IBGE, analisados em levantamento divulgado pela Assembleia Legislativa do Piauí, mostram que apenas 343 idosos vivem em instituições coletivas no estado, o equivalente a cerca de 0,07% da população idosa. No Brasil, essa proporção é aproximadamente sete vezes maior, chegando a 0,5%. O dado indica que o envelhecimento no Piauí ocorre com baixa institucionalização, o que, na prática, transfere para as famílias, e especialmente para as mulheres, a responsabilidade pelo cuidado em larga escala.

As consequências projetadas são significativas. Um estudo do Centro de Inteligência em Economia e Estratégia Territorial (CIET), vinculado à Secretaria de Planejamento do Piauí, projeta que a população do estado deve atingir o pico em 2036 e iniciar declínio a partir de 2037. No setor de saúde, o envelhecimento deve provocar crescimento de 84,6% nos casos de AVC, 71,8% nas doenças cardiovasculares e 67,6% nos diagnósticos de diabetes até 2070.
O impacto sobre o sistema previdenciário também é direto. Com menos jovens ingressando no mercado de trabalho e mais idosos saindo da população economicamente ativa, há redução relativa da força de trabalho, pressão sobre a produtividade e desequilíbrio no modelo previdenciário baseado na contribuição dos ativos para financiar aposentadorias, o que significa menos gente pagando e mais gente recebendo. 

No Piauí, o quadro ainda é agravado pela combinação com alta ruralidade - o estado ainda tem 31% de sua população no campo, a maior proporção do país - e por indicadores históricos de renda e acesso a serviços abaixo da média nacional, o que tende a ampliar a demanda por assistência pública entre os idosos nos próximos anos.

O estudo da Seplan aponta ainda que o envelhecimento tende a sobrecarregar especialmente as mulheres, que historicamente assumem maior responsabilidade pelo cuidado de crianças e idosos.
Para especialistas, a transição demográfica exige planejamento antecipado. Entre as medidas defendidas estão o estímulo à permanência de idosos no mercado de trabalho, investimentos em saúde preventiva e a diversificação das fontes de financiamento da previdência. No Piauí, onde o processo avança sobre uma infraestrutura ainda em consolidação, o prazo para essa adaptação é cada vez mais curto.

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