Uma associação registrada em uma pequena cidade do interior do Piauí tornou-se alvo de investigações após conseguir decisões judiciais que beneficiaram cerca de 63 mil pessoas endividadas em todo o país. O volume de beneficiários, equivalente a 13 vezes a população local, levantou suspeitas sobre a atuação de entidades envolvidas na chamada "indústria do Limpa-Nome".
Uma cidade com menos de 5 mil moradores no sertão do Piauí passou a ocupar posição central em uma investigação que apura supostas irregularidades em ações judiciais destinadas a retirar restrições de crédito de consumidores inadimplentes. O caso envolve a Associação Nacional de Defesa do Consumidor Brasileiro, apontada como responsável por obter liminares que favoreceram aproximadamente 63 mil pessoas em diferentes estados do país.
As apurações indicam que a entidade utilizava ações coletivas para impedir temporariamente que órgãos de proteção ao crédito, como SPC e Serasa, divulgassem registros de inadimplência dos consumidores incluídos nos processos. Embora as restrições fossem suspensas por decisões judiciais, as dívidas continuavam existindo e permaneciam sujeitas a pagamento ou negociação.
A investigação ganhou força após a constatação de que a quantidade de beneficiários era muito superior à população de São Gonçalo do Piauí, município onde a associação mantinha seu endereço oficial. Durante visita ao local, a reportagem encontrou uma residência alugada e moradores que afirmaram não ter conhecimento do funcionamento da entidade naquele imóvel.
Segundo especialistas ouvidos durante a apuração, consumidores de diversas regiões do Brasil eram vinculados à associação para permitir sua representação em ações coletivas. As investigações também apontam indícios de comercialização de listas de devedores, posteriormente utilizadas nos processos judiciais.
Para os investigadores, a escolha de municípios de pequeno porte pode ter relação com características específicas dessas comarcas, como menor volume de processos e histórico de decisões favoráveis a pedidos semelhantes. O modelo teria permitido a rápida obtenção de liminares com alcance nacional.
O caso não se restringe ao interior piauiense. As apurações identificaram situações semelhantes em outras cidades nordestinas, onde associações recorreram à Justiça para suspender a divulgação de informações sobre inadimplência. O objetivo era oferecer aos consumidores a possibilidade de obter crédito mesmo mantendo débitos pendentes.
As investigações seguem em andamento e envolvem a atuação de associações, advogados e magistrados ligados aos processos. As autoridades buscam esclarecer a extensão do esquema e identificar eventuais responsabilidades civis e criminais dos envolvidos.