Exame de sangue com IA pode acelerar diagnóstico precoce da hanseníase no Brasil

Pesquisa da USP aponta método mais sensível para detectar doença antes dos sintomas graves

Pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveram uma estratégia que pode transformar o diagnóstico da Hanseníase no Brasil. O método combina exame de sangue, questionário clínico e ferramentas de inteligência artificial para identificar a doença em fases iniciais, quando os sintomas ainda são discretos e os exames laboratoriais tradicionais costumam falhar. O estudo foi conduzido por especialistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e publicado na revista científica BMC Infectious Diseases.

Foto: Ajay Kumar Chaurasiya
Amostra de lesão cutânea com presença da bactéria Mycobacterium leprae (estruturas em vermelho), observada em microscópio com aumento de 1.000 vezes.

A pesquisa analisou amostras de sangue coletadas durante um inquérito populacional sobre COVID-19 realizado em Ribeirão Preto. Os participantes responderam ao Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH), composto por 14 perguntas sobre sinais neurológicos e sintomas comuns da doença. As respostas foram processadas com o sistema de inteligência artificial MaLeSQs, que auxilia na identificação de padrões associados à infecção pelo bacilo causador da doença.

Além do questionário, os cientistas utilizaram um exame de sangue capaz de detectar anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína ligada à invasão da bactéria nas células humanas. Diferentemente do teste tradicional, que analisa apenas um tipo de anticorpo, o novo método avalia três classes, IgA, IgM e IgG, ampliando a sensibilidade para identificar exposição ao bacilo, infecção ativa ou contato prévio. Entre os exames analisados, o anticorpo IgM apresentou o melhor desempenho, detectando dois terços dos novos casos confirmados.

Dos 224 voluntários que participaram do estudo, 37 passaram por avaliação clínica presencial, resultando na identificação de 12 novos casos de hanseníase, muitos deles sem sintomas evidentes. Ao combinar a análise laboratorial com a inteligência artificial, o sistema alcançou 100% de sensibilidade na triagem dos casos suspeitos. De acordo com os pesquisadores, a tecnologia pode fortalecer a detecção precoce da doença na rede pública e futuramente ser incorporada ao Sistema Único de Saúde, ampliando a capacidade de diagnóstico e controle de uma enfermidade que ainda representa importante problema de saúde pública no país.

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