“Sol artificial” coloca China na dianteira da corrida pela fusão nuclear

Tecnologia promete energia limpa e abundante, embora aplicação leve décadas.

Enquanto o debate global sobre a transição energética ganha força, a China tem investido em uma das áreas mais desafiadoras da ciência: a fusão nuclear. O país vem obtendo avanços relevantes no projeto conhecido como “sol artificial”, uma iniciativa que busca reproduzir, em laboratório, o mesmo processo que mantém o Sol em funcionamento há bilhões de anos.

Foto: Wikimedia Commons
“Sol artificial” coloca China na dianteira da corrida pela fusão nuclear

O experimento é conduzido no Experimental Advanced Superconducting Tokamak (EAST), um dos reatores de fusão mais avançados em operação no mundo. A proposta é gerar energia a partir da fusão de átomos leves, principalmente hidrogênio, em vez da fissão nuclear, que quebra átomos pesados e é usada nas usinas nucleares atuais.

Na fusão, núcleos de hidrogênio se unem para formar hélio, liberando grandes quantidades de energia, sem emissão direta de carbono e com produção muito menor de resíduos radioativos. Por isso, a tecnologia é vista por cientistas como uma possível fonte de energia limpa e abundante no futuro.

O principal desafio é técnico. Para que a fusão ocorra, o combustível precisa atingir temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius, formando um plasma altamente instável. No EAST, esse plasma é confinado em uma câmara em forma de anel, chamada tokamak, por meio de campos magnéticos extremamente potentes, que impedem o contato com as paredes do reator.

Nos testes mais recentes, pesquisadores chineses conseguiram manter o plasma estável por períodos mais longos e em condições que superam limites teóricos tradicionais, como o chamado limite de Greenwald, que estabelece parâmetros de densidade segura do plasma. Esse avanço indica a possibilidade de inserir mais combustível no reator sem perder estabilidade, um passo importante para aumentar a eficiência da fusão.

Os resultados colocam a China em posição de destaque em uma corrida científica global. O país também participa do ITER, maior projeto internacional de fusão nuclear, em construção na França, ao lado de União Europeia, Estados Unidos, Japão, Rússia e Coreia do Sul. A diferença é que, enquanto o ITER ainda está em fase de montagem, o EAST já acumula anos de dados experimentais.

Apesar do progresso, os próprios cientistas ressaltam que a fusão nuclear comercial ainda não é uma realidade. Nenhum reator no mundo produz hoje mais energia do que consome. O “sol artificial” chinês segue como um laboratório experimental, e a expectativa é que a tecnologia leve décadas para se tornar viável em larga escala.

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