O turismo e a farra: Emendas de Pablo Santos

Ex-secretário fez uma verdadeira farra de dinheiro público em shows

Por José Ribas Neto,

Em janeiro, fevereiro, março, abril, maio — e até julho, quando já não é mais tempo de São João — a Secretaria de Turismo do Piauí esteve em festa. Não uma festa no sentido figurado, mas festa mesmo, com bandas de forró, vaquejadas, exposições agropecuárias e até um campeonato de futebol.

Foto: ReproduçãoPrefeito de Picos, Pablo Santos
Prefeito de Picos, Pablo Santos

Os contratos que bancaram essa folia têm uma coincidência quase matemática: vieram de emendas parlamentares do deputado Pablo Santos (MDB), ex-secretário de Turismo, hoje prefeito de Picos, herdeiro de uma dinastia política que inclui o pai, Warton Santos, e o avô, Waldemar Santos, senador nos anos 1980.

Nove em cada dez emendas do deputado foram parar na Setur, a pasta que até pouco tempo atrás era comandada por ele mesmo. O arranjo dispensa malícia para parecer, no mínimo, conveniente: Pablo saiu da secretaria em 2024 para disputar a prefeitura de Picos e, eleito, deixou a máquina programada para irrigar shows por todo o estado.

As empresas da festa

Entre os credores da Setur, alguns nomes se repetem como atrações de festival de interior. Valas Eventos e Produções Ltda. virou campeã de cachês: em Corrente, Piracuruca, Angical, Monsenhor Gil, Água Branca, Castelo do Piauí e Demerval Lobão, a empresa faturou cifras que variaram de R$ 120 mil a R$ 160 mil por apresentação. O cardápio incluiu Swing do Leva, Oz Bambaz, André Rhamon e Levi Alvim.

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A Raffa Produções e Estruturas Ltda. apareceu em Água Branca, Barro Duro, Demerval Lobão, Curralinhos e Monsenhor Gil — sempre com a mesma atração: o Forró Bandido, contratado em série, como se fosse um combo promocional de carnaval fora de época. Cada show custou R$ 50 mil.

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Já a Rey Vaqueiro Produções Artísticas Ltda. abocanhou os contratos mais gordos: R$ 250 mil pelo aniversário de Bela Vista do Piauí, R$ 200 mil e mais R$ 80 mil para a vaquejada de Inhuma. Dinheiro público destinado a garantir a sanfona e a vaia eletrônica de um só artista.

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E há ainda as cifras menos ostensivas, mas igualmente chamativas: R$ 100 mil de patrocínio para o Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado do Piauí — um evento corporativo que, por lógica, caberia muito melhor no orçamento da Secretaria de Segurança Pública do que na de Turismo.

O problema da pertinência

Se os contratos da Valas, Rey e Raffa podem ser defendidos como “promoção turística”, ainda que se restrinjam a bailes e vaquejadas locais, o patrocínio ao sindicato beira o nonsense. Patrocinar o Encontro Nacional das Empresas de Segurança Privada (ENESP/NE) com verba de turismo soa tão razoável quanto usar emendas da Saúde para comprar abadás.

Mais do que a pertinência, o que está em jogo é a real necessidade. Enquanto escolas do estado sofrem com merenda precária e hospitais enfrentam desabastecimento crônico, milhões de reais são empenhados para financiar agendas de artistas que poderiam muito bem ser bancados pelas próprias prefeituras ou por patrocinadores privados.

Dinastia e continuidade

Pablo Santos não é um deputado qualquer. É filho de Warton Santos, petista histórico, e neto de Waldemar Santos, que já foi senador. A família mantém presença constante nos espaços de poder do Piauí. Em 2014, Pablo estreou na Assembleia Legislativa; em 2018, reelegeu-se; depois assumiu a presidência da Fundação Estatal Piauiense de Serviços Hospitalares (FEPISERH) de onde saiu pela porta dos fundos em investigação da Polícia Federal por supostos esquemas de corrupção durante a pandemia. Em seguida, virou secretário de Turismo de Rafael Fonteles e, por fim, prefeito de Picos.

Se a política piauiense fosse uma genealogia musical, Pablo seria o maestro: compõe, rege e distribui as partituras que viram cachês generosos nas cidades do interior.

A pergunta não respondida

É razoável que um único parlamentar concentre tantos recursos em festas e shows?
E mais: qual a função pública de financiar Forró Bandido em cinco cidades diferentes, Rey Vaqueiro com dois empenhos no mesmo evento, e Valas com um rodízio de bandas repetidas?

A música pode até ser boa, mas o refrão que ecoa nos bastidores da Assembleia é outro: a farra das emendas tem mais a ver com fidelidade política e retorno eleitoral do que com turismo, segurança ou cidadania.

Verbas direcionadas
Verbas direcionadas 2

Fonte: Portal AZ

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