Riad planta árvores no deserto enquanto Teresina perde sombra
Uma cidade de clima extremo investe em verde; outra ainda reage
Há uma ironia difícil de ignorar quando se observa o que está acontecendo em Riad, capital da Arábia Saudita, e se olha para Teresina. Riad está no centro da Península Arábica, sobre o planalto de Najd, a cerca de 600 metros de altitude. É uma cidade de clima desértico continental, com verão muito quente e seco. Entre junho e setembro, a média das máximas chega a 43 °C.
Mesmo nesse cenário, a cidade colocou a arborização no centro de uma estratégia urbana de longo prazo. O programa Green Riyadh prevê o plantio de mais de 7,5 milhões de árvores, a elevação da cobertura verde para 9% e a ampliação da área verde por habitante de 1,7 para 28 metros quadrados.
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A proposta saudita é reveladora porque trata a árvore como infraestrutura urbana. Ela produz sombra, reduz a exposição solar, melhora a experiência do pedestre e contribui para enfrentar o chamado efeito de ilha de calor. O verde deixa de ser apenas paisagismo e passa a fazer parte da engenharia da cidade.
Brasília oferece outro exemplo brasileiro. Concebida como cidade-parque, a capital federal construiu uma identidade urbana marcada por grandes áreas verdes e arborização. Estudos recentes sobre o Eixo Rodoviário mostram a trajetória de 65 anos dessa arborização e sua importância na configuração da paisagem urbana.
Curitiba também mantém uma política estruturada. A cidade possui mais de 318 mil árvores em vias públicas, segundo o diagnóstico do seu Plano Municipal de Arborização Urbana, atualizado em 2026. O município mantém ainda quase 13,9 milhões de metros quadrados de áreas verdes sob diferentes categorias de proteção e conservação.
E Teresina?
A capital piauiense já foi conhecida como Cidade Verde. O apelido, entretanto, parece cada vez mais distante da paisagem de uma cidade que cresceu, impermeabilizou o solo e perdeu parte significativa da presença cotidiana das árvores. O problema não é apenas estético. Pesquisa realizada na Avenida Frei Serafim relaciona diretamente a arborização ao conforto térmico e à formação de ilhas de calor em Teresina.
A crítica à atual gestão do prefeito Sílvio Mendes precisa ser feita justamente nesse ponto. A Prefeitura encaminhou em 2026 à Câmara Municipal uma proposta de Plano Diretor de Arborização Urbana, prevendo, entre outras medidas, canteiros arborizados em determinadas calçadas. É uma iniciativa que merece ser reconhecida, mas também cobrada: Teresina precisa de uma política de arborização que ultrapasse a regulamentação de calçadas e se transforme em um projeto urbano de escala municipal.
A própria literatura sobre o planejamento urbano de Teresina aponta um problema mais antigo: planos e normas existem, mas a integração entre planejamento, proteção ambiental e ação efetiva do poder público permanece insuficiente.
É aí que Riad se transforma em uma provocação para Teresina.
Se uma capital situada no coração do deserto consegue estabelecer uma meta de milhões de árvores, criar corredores verdes e incorporar vegetação à estratégia de adaptação climática, por que uma cidade que possui condições naturais muito mais favoráveis ainda não apresenta um programa de arborização urbana com a mesma dimensão, metas mensuráveis, cronograma, orçamento e acompanhamento público?
A ideia de copiar a Arábia Saudita seria absurda sem considerar as diferenças climáticas, hídricas, econômicas e sociais. A questão é outra: gestão pública precisa transformar conhecimento em projeto, projeto em orçamento e orçamento em cidade.
Teresina não precisa descobrir como plantar uma árvore. Precisa decidir onde plantar, quais espécies utilizar, como garantir irrigação e manutenção, quais vias devem receber corredores de sombra, onde criar parques, como proteger as margens dos rios e como impedir que cada nova obra substitua verde por concreto.
O calor não é novidade para quem vive aqui. A novidade deveria ser a capacidade de enfrentá-lo.
Riad está tentando construir sombra onde a natureza ofereceu pouca. Brasília preservou o conceito de cidade-parque. Curitiba mantém uma política permanente de arborização.
Teresina, que um dia se orgulhou de ser Cidade Verde, precisa responder se pretende recuperar esse título apenas como memória afetiva ou transformá-lo novamente em política pública, paisagem e qualidade de vida.
A cidade não ficará mais fresca por decreto. Mas pode começar a ficar mais habitável por decisão.
Fonte: Portal AZ