O mundo de Alice de Renan: liberdade para quem?

Renan Santos propõe cortes e é detonado nas redes sociais

Por Márcio Felipe Rocha, jornalista,

Renan Santos entrou na campanha presidencial com um discurso que chama atenção pela disposição de romper estruturas. O problema é que romper é relativamente fácil de anunciar. Difícil é explicar o que será colocado no lugar, quem será afetado e quais serão as consequências.

Foto: ReproduçãoOk

Em 18 de agosto, durante encontro com representantes do comércio e dos serviços, o candidato defendeu o fim da Justiça do Trabalho e afirmou que “a CLT já deu, já era”. Também criticou a proposta de redução da escala 6x1, classificando-a como “maluquice”, e defendeu modelos de contratação remunerados por hora.

Foto: Prints/Redes SociaisOk

A declaração sobre a CLT merece uma pergunta simples: se ela acabou, o que vem depois? A resposta não pode ser apenas “flexibilização”. O trabalhador precisa saber quais direitos permanecerão, quem fiscalizará as relações de trabalho e a quem recorrerá diante de um conflito.

Foto: Prints/Redes SociaisOk

É aí que o discurso começa a encontrar a realidade.

A relação entre empregado e empregador não ocorre, na maioria das vezes, entre duas pessoas com o mesmo poder de negociação. Quem precisa do salário para pagar aluguel, comida e contas não negocia nas mesmas condições de quem pode escolher se contrata, substitui ou encerra um contrato. A legislação trabalhista existe também para estabelecer limites nessa relação.

Por isso, acabar com a Justiça do Trabalho não significa simplesmente extinguir um órgão. Significa alterar o caminho pelo qual milhões de trabalhadores procuram proteção quando há conflito. A pergunta que falta é objetiva: essa mudança tornaria o acesso à Justiça mais rápido e barato para o trabalhador ou apenas transferiria o problema para outra porta?

Nas redes sociais, a reação foi carregada de ironia. “Nunca trabalhou na vida”, escreveu um internauta. Outro perguntou: “Por que ele precisaria de CLT e Justiça do Trabalho?”. Uma usuária provocou: “Coloca o seu cargo nesse regime de trabalho, experimenta primeiro”. Outra foi além: “Eu defendo o fim do salário para políticos”.

As frases são comentários de internautas, não pesquisas capazes de representar o eleitorado. Mas revelam uma percepção que acompanha a discussão: a de que mudanças nas relações de trabalho são frequentemente propostas por pessoas que não experimentarão, na mesma medida, os efeitos dessas mudanças.

Há uma segunda dificuldade. Renan afirmou que a CLT “já era”, mas posteriormente admitiu que ainda seria necessário discutir se ela permaneceria combinada com outros modelos. A campanha, nesse ponto, apresenta uma conclusão definitiva para uma proposta que ainda precisa ser definida. É uma inversão curiosa: primeiro se anuncia o fim; depois se discute o que exatamente será encerrado.

A escala 6x1 produz outra contradição. Renan sustenta que sua redução prejudicaria empresas e elevaria custos. O argumento econômico precisa ser considerado. Mas não pode ser apresentado como se o trabalhador não tivesse custo algum nessa equação. Tempo de descanso também tem consequência econômica, social e familiar. A pergunta é quanto custa manter determinada jornada e quem paga esse custo.

Na segurança pública, o candidato elevou o tom. Em outra declaração, disse que, no primeiro dia de seu eventual governo, haveria “um banho de sangue” e afirmou que a polícia deveria “atirar em vagabundo como se não houvesse amanhã”.

É uma fala que pode produzir impacto eleitoral, mas não resolve a questão central: como combater organizações criminosas sem transformar o uso da força em autorização para agir sem limites? Um governo federal precisa coordenar políticas de inteligência, investigação, integração policial, combate ao financiamento do crime e controle das operações. A frase agressiva não substitui nenhum desses instrumentos.

Durante debate na Band, Cury também atacou a formação de Renan Santos: “Como vou debater com alguém que nunca investiu na própria educação?”. A provocação pode render alguns segundos de televisão, mas não resolve o problema. Candidato precisa ser cobrado pelas propostas, não apenas pelo currículo. E Renan, como qualquer outro postulante ao Planalto, precisa responder às perguntas que suas próprias propostas produzem.

A discussão, portanto, não deveria ficar restrita à simpatia ou antipatia pelo candidato. O eleitor pode concordar com o fim da Justiça do Trabalho, discordar da escala 6x1 ou defender uma política de segurança mais dura. O que não deveria ser dispensado é a explicação.

Se a CLT for modificada, o que entra no lugar? Se a Justiça do Trabalho for extinta, quem protegerá o trabalhador? Se a contratação por hora avançar, como serão evitadas relações precárias? Se a escala 6x1 permanecer, quais serão os efeitos sobre produtividade e qualidade de vida? E, diante do crime organizado, quais serão os limites do uso da força policial?

Essas perguntas não são obstáculos à candidatura de Renan Santos. São o mínimo que se pode exigir de alguém que pretende governar um país.

Um internauta escreveu: “O pior é que vai ter gente apoiando”. Naturalmente haverá. Eleições não são concursos de unanimidade. O problema aparece quando uma proposta que pode atingir milhões de pessoas é recebida como slogan, sem que se conheça o projeto inteiro.

Renan tem o direito de defender suas posições. O eleitor tem o dever de perguntar o que elas significam fora do palanque. É justamente aí que começa a diferença entre votar em uma frase e votar em uma proposta de governo.

Fonte: Portal AZ

Comente

Pequisar