Crônica: E se o Brasil se tornar uma Dubai tropical?
Promessas de riqueza exigem respostas sobre direitos e liberdade
Se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, torço para que o Brasil se transforme numa Dubai tropical. Quero ver o pobre acordar xeique, encontrar petróleo debaixo da cama e pagar as contas sem sustos. Que o salário mínimo venha em dirhams, a moeda dos Emirados Árabes Unidos, e que o preço do feijão deixe de assustar e a carne com osso venha pelo menos com tutano. Afinal, se a riqueza prometida chegar a todos, até o supermercado poderá virar roteiro turístico.
Quero ver também a Justiça brasileira livre dessas preocupações constitucionais. Que o episódio da estátua da Justiça, em Brasília, pintada de batom, receba a atenção merecida, enquanto Alexandre de Moraes e Flávio Dino possam descansar de tanto defender a soberania nacional. E, se Washington resolver dar palpites, que seja apenas por cortesia. Não seremos mais um quintal, mas um território livre. Afinal, nada demonstra mais independência do que esperar a aprovação dos outros.
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Na economia, quero ver a CLT virar peça de museu e os trabalhadores comemorarem a liberdade de negociar até o direito de pagar as próprias contas. Os gráficos vão subir, os investidores sorrirão e o empregado poderá admirar a prosperidade enquanto calcula se o salário ainda compra feijão. Seremos uma Dubai com a bandeira americana hasteada: independentes, desde que ninguém contrarie os interesses de quem manda.
Também quero um Brasil com mais Bíblias nas mãos e menos fiscais da vida alheia. Que os varões defensores da moral preservem o discurso sobre a família enquanto reservam a vida privada para suas próprias escolhas. E que continuem ensinando aos outros como viver, sem que ninguém se atreva a perguntar se seguem os próprios conselhos. Hipocrisia? De modo algum. É apenas a liberdade de defender certos valores em público e interpretá-los de maneira particular quando anoitece.
Se Flávio vencer, teremos a oportunidade de conhecer esse paraíso. Quero mulheres com direitos, trabalhadores felizes com tantos privilégios e regalias e idosos trabalhando até a exaustão, porque descansar talvez seja privilégio de xeique. E, se alguém perguntar onde está a liberdade, a resposta será simples: cada um faz o que quer, desde que tenha dinheiro e poder. Se a Dubai brasileira existir apenas na propaganda, pelo menos o eleitor poderá admirar o arranha-céu imaginário enquanto tenta pagar o aluguel — em moeda nacional, naturalmente.
O Brasil será um verdadeiro Jardim do Éden. Romperemos com todos os ciclos e, finalmente, teremos políticos mais decentes — ou será que bastará Flávio transformar o país em um mundo perfeito aos olhos de seus seguidores?
Fonte: Portal AZ