Eleições (2026): o país cansado de escolher pelo medo
Eleição revela uma sociedade dividida, cansada e desconfiada
O resultado do primeiro turno deveria servir menos para comemorações e mais para reflexão. A diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro mostrou que o Brasil continua profundamente dividido, mas revelou também algo que talvez seja ainda mais preocupante: uma sociedade cansada, desconfiada e cada vez mais distante da política.
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É fácil explicar uma eleição dizendo que o eleitor é de esquerda, de direita, lulista ou bolsonarista. Difícil é entender o homem que acorda cedo, pega um ônibus lotado, trabalha o dia inteiro, chega em casa exausto e ainda precisa fazer conta para saber se o dinheiro vai chegar ao fim do mês.
Esse brasileiro não está pensando em teorias políticas. Está pensando na conta de luz, no preço da comida, na escola dos filhos, na segurança da rua e no tempo que perdeu da própria vida.
A pandemia deveria ter nos ensinado alguma coisa. Mostrou como somos frágeis, expôs a desigualdade e deixou milhões de pessoas pelo caminho. Também revelou a incapacidade do Estado e da sociedade de enfrentar problemas coletivos sem transformá-los imediatamente em disputa ideológica. Passados os anos, continuamos repetindo o mesmo erro.
Há indicadores econômicos melhores. O desemprego caiu, a renda cresceu e milhões de brasileiros voltaram ao mercado de trabalho. Isso é fato e precisa ser reconhecido. Mas também é fato que a informalidade continua enorme e que muita gente ainda não sente no bolso aquilo que aparece nas estatísticas.
É aí que a política costuma fracassar.
Não adianta dizer ao cidadão que a economia está melhor quando ele continua inseguro, endividado ou sem perspectiva. Da mesma forma, não é sério vender a ideia de que todos os problemas brasileiros serão resolvidos simplesmente trocando Lula por outro Bolsonaro.
O sobrenome não pode substituir um projeto de país.
Esse talvez seja um dos maiores problemas do discurso bolsonarista: transformar o antipetismo em resposta para praticamente tudo. Lula tem defeitos, o governo comete erros e precisa ser cobrado. Mas criticar Lula não responde, por si só, como Flávio Bolsonaro pretende governar o Brasil.
Segurança pública não pode ser apenas discurso duro. Economia não pode ser apenas promessa. Liberdade não pode significar deixar o trabalhador sozinho diante de uma relação desigual de trabalho.
A discussão sobre a escala 6x1 é um bom exemplo. Falar em liberdade para o trabalhador escolher sua jornada parece simples. Mas é preciso perguntar: quem realmente tem poder de escolha quando precisa do salário para sustentar a família?
Tempo também é qualidade de vida. É acompanhar o crescimento dos filhos, visitar os pais, descansar, estudar, cuidar da saúde ou simplesmente ter um domingo sem pensar no trabalho do dia seguinte.
O Brasil precisa discutir isso sem slogans.
Lula, por sua vez, também precisa compreender que não vencerá esta eleição apenas lembrando o passado. O eleitor não vive de nostalgia. Ele quer saber o que acontecerá amanhã.
E existe uma parcela enorme da população que não quer mais viver em permanente estado de guerra política. Gente que não quer escolher pelo medo, pelo ódio ou pela rejeição ao outro. Gente que quer simplesmente viver melhor.
Esse é o paradoxo brasileiro: temos uma democracia consolidada, mas ainda convivemos com desigualdade, precariedade, violência, desinformação e uma preocupante apatia social.
Talvez esta eleição seja justamente uma oportunidade para romper esse ciclo.
O segundo turno deveria ser menos sobre quem odiamos e mais sobre aquilo que esperamos do país.
Porque, no fim, a eleição passa. A vida continua.
E é na segunda-feira seguinte, quando o despertador tocar, que o brasileiro descobrirá se escolheu apenas um vencedor ou se escolheu um caminho.
Fonte: Portal AZ