Redes Sociais - “Efeito Lúcifer” desnudando personalidades
Redes Sociais - “Efeito Lúcifer” desnudando personalidades
Em consulta ao site da BBC Brasil, deparei-me com um artigo publicado pela Mosaic, da editora Wellcome, sob o título “Por que a personalidade das pessoas muda (muitas vezes para pior) nas redes sociais?”.
No texto, em fevereiro do ano em curso, a professora erudita da Universidade de Cambridge, Mary Beard, reconhecida celebridade intelectual na Inglaterra, postou uma foto no Twitter chorando. Estava desolada! Após fazer um comentário em defesa do Haiti, ela foi vítima de uma avalanche de insultos. "Eu falo com o coração (e, é claro, posso estar errada). Mas, o lixo que eu recebo como resposta, não é justo, realmente não é" – disse em lágrimas.
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O registro do fato é histórico! Mary descobriu que mulheres e representantes de minorias étnicas são desproporcionalmente as maiores vítimas de abusos principalmente no Twitter. Além de violência moral e sexual explícita em textos, sofrem também ameaças de morte. Um “bombardeio” constante de ofensas!
Em uma pesquisa realizada em 2017, descobriu-se nos Estados Unidos que 40% dos adultos americanos já sofreram abusos nas redes sociais. Sendo que quase metade foi vítima de formas graves de assédio, incluindo ameaças físicas e perseguição. 70% das mulheres descreveram o assédio online como um "problema sério".
Não vamos muito longe. Mas, no caso do Piauí entre nós, infelizmente as redes sociais estão desnudando “personalidades tupiniquins”. Enquanto no “mundo real” interagem respeitosa e educadamente, no “mundo virtual” pessoas tidas e havidas como instruídas, intelectualizadas, entram no campo do detestável mostrando outra personalidade.
“A internet oferece uma promessa sem precedentes de cooperação e comunicação entre toda a humanidade. Mas, em vez de abraçarmos a possibilidade de expandir nossos círculos sociais na web, a impressão é de que estamos regredindo ao tribalismo e ao conflito”, diz a célebre Mary.
Confesso, estou assustado no caso do Piauí! Não compreendo porque determinadas pessoas ficaram tão agressivas com o surgimento das redes sociais. Não compreendo porque comportamentos adquiridos nos berços familiares, nos bancos escolares e nas faculdades mudaram tão rapidamente com o advento das redes sociais. Nas minhas leituras, a única explicação plausível é aquela consignada por estudiosos comportamentais, que admitem que algo nas redes sociais está encorajando comportamento mesquinho. Algo como as questões políticas e de classes sociais, por exemplo.
Estudos mostram que, hoje, é preciso ter sorte para viver pacatamente. Para não disseminar e se deparar com condutas ultrajantes diante de manifestações de indignação moral. Várias pesquisas recentes mostram que as mensagens com conteúdo moral ou emocional são mais propensas a se propagar nas redes sociais.
Cristian Danescu-Niculescu-Mizil, do Departamento de Ciência da Informação da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, diz que há uma minoria de “sociopatas online” que estão provocando um escarcéu moral na sociedade. E pessoas incautas são conduzidas por esse comportamento antissocial. O cientista tem identificado dois pontos principais para comentários agressivos e maldosos nas redes sociais: “o contexto da conversa” (como os outros usuários estão se comportando); e “o humor de quem posta”. E exemplifica: "Se você está tendo um dia ruim, ou se for segunda-feira, por exemplo, é muito mais provável que você tenha um comportamento negativo", diz ele. "Você é mais legal em um sábado de manhã."
Retornando para o caso do Piauí, é lamentável que a maioria das postagens nas redes sociais não expresse qualquer cooperação social, interação e integração comportamental. Ao contrário! Destila-se uma indignação moral sustentada no ódio, no desejo incontido de destruição, sobretudo da imagem alheia. São verdadeiras "câmaras de eco" reproduzindo vindita pessoal, desforra e ódio sem olhar a quem. Assustadoramente!
Mary aconselha: mantenha a calma. Não revide. Bloqueie e ignore os agressores. Ou se você se sentir confortável, diga a eles para parar. Converse com familiares ou amigos sobre o que está acontecendo e peça ajuda. Faça capturas de tela e denuncie as ofensas para a rede social em que estão acontecendo. E, se incluir ameaças físicas, avise a polícia. "Este é apenas um jogo diferente e temos que evoluir" – diz.
Infelizmente, hoje, defrontamo-nos com “personalidades desnudas”, doentias, contaminadas ou contagiadas pelas redes sociais. Um “desnudamento” é visível. Para alguns, risível! Vergonhosamente, intelectos, inteligências, mentes e entendimentos completamente “nus”! Enquanto na “vida real” essas pessoas se seguram para não expressar opiniões preconceituosas e agressivas, com medo das consequências, esses comportamentos são liberados na vida virtual. A “nudez” da personalidade aflora de forma latente e arrogante. É como se a capacidade racional dessas pessoas estivesse parcialmente anestesiada por emoções.
Na obra-prima “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, Freud explica que a mentalidade das pessoas muda quando elas se veem fazendo parte de um grupo, em especial um grupo no qual há uma busca por aceitação, quando, em massa, o sujeito não responde mais a determinadas situações da mesma maneira como ele faria individualmente.
O psiquiatra Luiz Sperry compara o comportamento de massas nas redes sociais com uma torcida de futebol. “Assim como numa torcida organizada, vamos formando grupos com pessoas que têm alguma coisa a ver com a gente. Esses bandos virtuais ficam de certa forma latentes até que as emoções começam a fluir e, de forma contagiante, viralizam”.
Para Michel Petrella, psicólogo com formação em orientação psicanalítica, “nas redes sociais, todos esses fenômenos tomam uma magnitude gigantesca”. Ele entende que “os sujeitos cometem atrocidades em total esquecimento de si mesmos e dos valores éticos, como o respeito mínimo aos direitos humanos”. Ele ressalta o “Efeito Lúcifer”, do psicólogo social estadunidense Philip Zimbardo: “Alguns tipos de transtornos de personalidade ou transtornos parafílicos podem gerar uma espécie de circuito de prazer compulsivo, onde o sujeito utiliza as redes sociais como forma de descarga de energia, ou, ainda, uma forma de realizar fantasias perversas, que não teriam coragem de realizar no mundo real”.
No livro “O Efeito Lúcifer”, Zimbardo retrata um experimento conduzido em uma prisão nos Estados Unidos, em que o efeito transformou a potência humana de criação em uma potência destrutiva, e homens considerados “de bem” podem se tornar verdadeiros monstros, desde que o ambiente assim o favoreça.
Em síntese e para finalizar, é importante separar os movimentos de massa nas redes sociais das pessoas que realmente possuem transtornos de personalidade, que disseminam discursos agressivos como doentes pervertidos e transtornados sob o “Efeito Lúcifer”.
*Miguel Dias Pinheiro é advogado