Desde o governo de George Washington (1789–1797), os Estados Unidos iniciaram um processo consistente de consolidação econômica, marcado pela expansão do comércio, da indústria e do sistema financeiro. Ao longo das décadas seguintes, esses setores conheceram crescimento acelerado, atraindo fluxos migratórios significativos, principalmente provenientes da Europa, o que contribuiu para a formação de um mercado interno robusto. No decorrer do século XIX, tal dinamismo econômico fortaleceu-se ainda mais, alimentando o sentimento de nacionalismo e a construção da ideia de um Estado forte, dotado de vocação expansionista.
Esse nacionalismo manifestou-se territorialmente na Marcha para o Oeste e, em determinados momentos, na expansão para o Norte, em áreas sob domínio britânico no Canadá. Embora o ideal de unidade nacional tenha sido profundamente abalado pela Guerra de Secessão (1861–1865), é inegável que, antes mesmo desse conflito, os Estados Unidos já haviam estruturado as bases ideológicas de seu nacionalismo e de seu imperialismo. A principal expressão dessa gênese foi a Doutrina Monroe, proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, sintetizada no lema “A América para os americanos”.
A aparente simplicidade dessa formulação esconde ambiguidades fundamentais. A quem se referia Monroe ao empregar o termo “americanos”? À totalidade dos povos dasAméricas ou, de forma restritiva, aos norte-americanos? Do mesmo modo, qual “América” estava em jogo: apenas o território dos Estados Unidos ou o conjunto das Américas? A análise dos fatos históricos demonstra que a doutrina foi interpretada como um instrumento de legitimação da hegemonia dos Estados Unidos sobre todo o continente, convertendo-se em um marco político da expansão econômica, supremacista e estratégica norte-americana. Ou, bem diretamente, a América para os norte-americanos, delineando o espaço territorial do continente como sua área de influência permanente, distante dos interesses imperialistas europeus.
Esse princípio foi posteriormente incorporado e aprofundado pelo presidente Theodore Roosevelt, por meio da política do Big Stick, que combinava diplomacia com a ameaça explícita do uso da força. Tal política orientou uma série de intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos na América Latina, em países como Cuba, Panamá e Nicarágua, evidenciando que o intervencionismo norte-americano na região não constitui um fenômeno recente, mas uma constante histórica vinculada a interesses econômicos e geopolíticos que fossem favoráveis aos norte-americanos, caso contrário, o “grande porrete” do Tio Sam estaria pronto para atacar.
Partindo dessa perspectiva histórica, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, no início de 2026, século XXI, estaria inserida nessa longa tradição imperialista. Ajustificativa oficial para a invasão do território foi estabelecer acusações de envolvimento do governo venezuelano com o narcotráfico, isso funcionaria como elemento retórico, encobrindo objetivos estratégicos mais amplos; afinal, como disse Karl Marx, em “O 18 de Brumário”: “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, embora não figure entre os maiores produtores globais, em razão de limitações técnicas, financeiras e má gestão de políticas estabelecidas por governos anteriores. Em contraste, os Estados Unidos ocupam a posição de maior produtor mundial de petróleo, seguidos pela Arábia Saudita e pela Rússia. No caso russo, o petróleo e o gás natural constituem o eixo central de sua economia e a principal fonte de financiamento do Estado. Ou seja, os recursos naturais são os grandes responsáveis por deixar a Rússia de Putin tão forte.
Assim, hipoteticamente, a intervenção norte-americana na Venezuela com vistas à reestruturação e à intensificação da exploração petrolífera venezuelana poderia ter como efeito a ampliação da oferta global de petróleo, pressionando os preços internacionais para baixo. Lei da oferta e da procura. Assim, teoricamente, esse movimento fragilizaria economias fortemente dependentes da exportação de petróleo e gás-natural, como a russa.
Sob esse prisma, a econnomia da Rússia poderia entrar em processo de fragilização, o que poderia acarretar o comprometimento de sua capacidade de sustentar, a longo prazo, os elevados custos financeiros, logísticos e políticos de um conflito armado prolongado, como a guerra contra a Ucrânia.
Em tempo: o fato histórico: intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, não pode ser analisado utilizando antolhos, pois são vários os interesses sob a Venezuela. Entretanto, nossa opinião, trata-se de uma hipótese geopolítica, que articula economia, energia e poder militar, e que deve ser analisada com cautela, à luz de múltiplas variáveis, inclusive sob o prisma de minimizar o conflito entre Rússia e Ucrania.