O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, incluindo o suco de laranja, acendeu o alerta no setor exportador brasileiro. Com a produção americana em queda, o Brasil se tornou o principal fornecedor mundial desse produto, especialmente para o mercado dos EUA, que responde por cerca de 41,7% das importações brasileiras de suco de laranja.
A produção nacional está concentrada principalmente no estado de São Paulo, que responde por 78% da produção de laranja e mais de 80% do suco processado no país. O setor não só atende a demanda interna, mas também é um dos principais pilares das exportações brasileiras, com impacto direto em empregos e economia regional.
A queda na produção americana, especialmente na Flórida, está ligada à doença bacteriana greening dos citros (Huanglongbing - HLB), que tem devastado os pomares desde 2005. Enquanto a Flórida perdeu capacidade produtiva, o Brasil manteve sua resiliência, ampliando exportações para os EUA, Europa e México. Nos primeiros meses de 2025, o Brasil representou 68% das importações americanas de suco de laranja.
Desde abril, os EUA já impuseram uma tarifa extra de 10% sobre o suco brasileiro. A proposta de aumentar para 50% pode ser devastadora, encarecendo o produto e tornando-o menos competitivo. A professora Margarete Boteon, da Esalq/USP, alerta que essa sobretaxa elevaria significativamente os custos para os consumidores americanos, reduzindo a demanda e, consequentemente, as exportações brasileiras.
O professor e pesquisador do FGVAgro, Cícero Lima, reforça que o aumento da tarifa dificultaria ainda mais a entrada do suco brasileiro no mercado americano, colocando em risco a produção e o emprego no setor no Brasil.
Mesmo que as exportações diminuam, o mercado interno brasileiro tem pouca capacidade para absorver o excedente, devido à demanda saturada e ao baixo índice de substituição do suco por outras bebidas. Com isso, produtores podem optar por reduzir a produção, o que impacta investimentos e empregos.
Uma alternativa apontada por especialistas é a ampliação das exportações para outros mercados, como a União Europeia, China, Canadá e países do Sudeste Asiático, por meio da retomada e implementação de acordos comerciais.
A sobretaxa não prejudica apenas o Brasil. O suco brasileiro serve como insumo para grandes indústrias americanas, como engarrafadoras e fabricantes de bebidas, gerando empregos e movimentando a economia local. A falta desse insumo pode comprometer a cadeia produtiva nos EUA, que não possui substitutos em curto prazo.