O aumento do endividamento das famílias brasileiras tem sido impulsionado pela combinação entre juros elevados e crédito mais caro oferecido pelos bancos, apontam economistas. O cenário levou o governo federal a lançar nesta semana o Novo Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas e recuperação de crédito.
Dados mostram que o spread bancário, diferença entre os juros pagos pelos bancos e os cobrados dos consumidores, segue em alta no país. Em março deste ano, o índice chegou a 34,6 pontos percentuais, acima dos 29,7 registrados no mesmo período de 2025. Para comparação, a média mundial estimada pelo Banco Mundial gira em torno de 6 pontos percentuais.
Segundo especialistas, a manutenção da taxa Selic em patamares elevados também contribui diretamente para o encarecimento dos empréstimos e financiamentos.
A professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, afirmou que os juros praticados atualmente dificultam o funcionamento da economia e ampliam a pressão sobre o orçamento das famílias.
De acordo com a economista, muitas pessoas recorrem ao crédito para custear despesas básicas e manter as contas em dia. Ela também aponta que a precarização do mercado de trabalho contribuiu para o aumento da vulnerabilidade financeira da população.
Atualmente, o Brasil possui uma das maiores taxas de juros reais do mundo, descontada a inflação, com índice de 9,3%, ficando atrás apenas da Rússia, segundo levantamento do site especializado Moneyou. O México aparece na terceira posição, com taxa de 5%.
Na mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando os juros básicos em 14,5% ao ano. O BC sustenta que a medida é necessária para controlar a inflação, enquanto críticos consideram o patamar ainda elevado.
O reflexo desse cenário aparece nos índices de endividamento. Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que 80% das famílias brasileiras possuíam dívidas em abril deste ano, o maior percentual da série histórica.
Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o nível de endividamento chegou a 83,6%. Já o percentual de contas em atraso nesse grupo alcançou 38,2%.
O Novo Desenrola Brasil foi lançado com foco em consumidores de baixa renda e prevê descontos, parcelamentos e redução de juros para renegociação de dívidas bancárias. O governo avalia que a medida pode ampliar o acesso ao crédito e aliviar o orçamento das famílias endividadas.