Editorial: o tamanho do engano: quando 70,8% viram 46% em cinco dias

O governador e seu núcleo de poder vivem num cenário fantasioso

Que ninguém diga que o piauiense não foi avisado. Entre os dias 7 e 10 de abril de 2026, o Instituto GP1 foi a campo em 107 municípios do Piauí, ouviu 1.137 eleitores e entregou ao governador Rafael Fonteles o presente que ele queria: 59,7% das intenções de voto no cenário estimulado e impressionantes 70,8% nos votos válidos contra Joel Rodrigues, que amargaria 29,2%. Uma vitória em primeiro turno com margem confortável de mais de 41 pontos percentuais. Um passeio. Uma coroação antecipada. A pesquisa foi divulgada no dia 13 e, no dia 15, o governador correu às redes para celebrar: “feliz em ver a nossa aprovação em níveis elevados”.

Foto: Reprodução
Rafael aparece aqui na rabada como um dos piores do país.

Cinco dias depois, no domingo, dia 20 de abril, o Instituto Veritá publicou seu levantamento nacional. Metodologia padronizada, 40.500 entrevistas em todas as 27 unidades da federação, o maior retrato da opinião pública brasileira já feito neste ciclo eleitoral. E o que o Veritá encontrou no Piauí? 54% de desaprovação. Apenas 46% de aprovação. O governador na 16ª posição entre os mais rejeitados do país, pior avaliado que 15 colegas de outros estados. Como se explica um eleitor que, em 10 de abril, entregaria ao governador 70,8% dos votos válidos, mas que, poucos dias depois, afirma majoritariamente desaprovar a gestão dele? A resposta é simples e incômoda: não se explica. Porque um dos dois retratos é falso.


O contraste é tão brutal que desmorona qualquer tentativa de conciliação estatística. Margem de erro não explica. Momento político não explica. Nem mesmo a diferença entre “intenção de voto” e “aprovação de governo” justifica abismo dessa magnitude — é intuitivo que um governador com 54% de rejeição não ganhe em primeiro turno com 70,8% dos válidos. Os dois resultados são, por construção lógica, incompatíveis. Se o Veritá está certo, o GP1 está catastroficamente errado. E o GP1 vinha “acertando” há anos, sempre para o mesmo lado, sempre inflando o governante de plantão.


Convém olhar a série histórica do próprio GP1 para dimensionar o problema. Em maio de 2024, o instituto cravou 73,67% de aprovação ao governador. Em junho de 2025, 70,7%. Em novembro de 2025, já sob o peso das operações da Polícia Federal na Secretaria de Saúde — com R$ 66 milhões bloqueados e falhas bilionárias apontadas pelo TCE-PI em contratos de Organizações Sociais —, o instituto admitiu uma tímida queda para 67%, com desaprovação subindo para quase 20%. Agora, em abril de 2026, devolveu o governador a patamares que permitiram a Rafael comemorar “níveis elevados”. Ou seja: enquanto o mundo real desmoronava em torno da gestão, os números do GP1 oscilavam apenas o suficiente para simular credibilidade, mas nunca o suficiente para incomodar o Palácio de Karnak.


Feito esse diagnóstico, é justo conceder ao governador Rafael Fonteles o benefício da dúvida. Presume-se sua boa-fé — e ela deve ser presumida, porque é dever de qualquer análise honesta não atribuir à má-intenção o que pode ser explicado pelo cerco de informações distorcidas que se forma em torno de quem governa. Rafael provavelmente acreditou, ele mesmo, nos números que celebrava. E é exatamente aí que mora o problema, e também a saída. Se o governador tem a lealdade com a população que todo gestor público tem obrigação de cultivar, ele precisa agora fazer um gesto de coragem política interna: peneirar sua assessoria de comunicação. Escolher gente que trabalhe com a verdade e com boas técnicas, que leve ao gabinete a realidade como ela é — dura, áspera, desafiadora —, e não uma versão cor-de-rosa produzida para acariciar egos e sustentar narrativas que a rua já desmentiu. Privilegiar quem vende realidade inexistente é, no curto prazo, confortável. No médio prazo, letal.


O precedente está fresco na memória do piauiense. Em 2024, em Teresina, Fábio Novo foi ungido por pesquisas locais como vencedor em primeiro turno. As manchetes eram unânimes, os números pareciam inabaláveis, a vitória era tratada como formalidade. Nas urnas, o primeiro turno veio — e com ele a derrota. A realidade, que havia sido sistematicamente filtrada pelo ecossistema de pesquisa amiga, cobrou no único momento em que não se pode maquiar: na hora do voto. Rafael Fonteles tem hoje diante de si a escolha entre repetir o caminho de Fábio Novo ou ouvir o alerta que o Veritá, mesmo sem querer, acabou entregando. Seria bom para o povo do Piauí, que merece um governador informado pela verdade. E seria ainda melhor para o próprio governador, que merece a chance de governar sabendo onde pisa — antes que a urna, soberana e implacável, lhe mostre o que os números encomendados se recusaram a dizer.

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