A Bayer, uma das maiores empresas do setor de agrotóxicos no mundo, prepara o lançamento de um novo herbicida que deverá chegar primeiro ao mercado brasileiro em 2028. Batizado de icafolin-metil, o produto foi desenvolvido para combater plantas daninhas resistentes ao glifosato, princípio ativo do Roundup, herbicida amplamente utilizado nas lavouras brasileiras e alvo de milhares de ações judiciais nos Estados Unidos.
Segundo a companhia, o novo produto foi criado para atuar de forma complementar ao Roundup, cuja eficácia tem diminuído diante da resistência de diversas espécies de ervas daninhas. O icafolin utiliza um mecanismo diferente para impedir o crescimento das plantas invasoras e foi desenvolvido com auxílio de inteligência artificial.
Mesmo antes da comercialização, o novo herbicida já provoca reações entre especialistas em saúde pública e ambientalistas. O principal questionamento está relacionado à falta de estudos independentes sobre os impactos do produto na saúde humana e no meio ambiente.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já concedeu aval toxicológico ao princípio ativo do icafolin-metil. No entanto, ainda faltam as autorizações do Ministério da Agricultura e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o uso técnico e comercial no país.
O processo de registro tramita em caráter prioritário no governo federal. O Ministério da Agricultura justificou a preferência alegando que o produto apresenta um novo mecanismo de ação contra plantas daninhas resistentes.
Especialistas criticam a rapidez da análise no Brasil. O pesquisador da Fiocruz e ex-gerente da Anvisa, Luiz Claudio Meirelles, afirmou que o produto ainda não foi totalmente analisado por outras agências internacionais, como as dos Estados Unidos, Canadá e União Europeia.
A preocupação também envolve o histórico do glifosato. Em 2015, a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou a substância como “provavelmente cancerígena para humanos”. Desde então, a Bayer enfrenta cerca de 192 mil processos judiciais nos Estados Unidos relacionados ao Roundup e já desembolsou bilhões de dólares em acordos.
O novo herbicida também faz parte da estratégia da empresa para enfrentar a perda de eficiência do glifosato. Dados da base internacional Weed Science apontam que dezenas de espécies de plantas invasoras já desenvolveram resistência ao Roundup, incluindo ervas daninhas presentes em lavouras brasileiras de soja e milho.
Além do herbicida, a Bayer também busca registrar sementes geneticamente modificadas resistentes ao icafolin, repetindo o modelo comercial utilizado com o Roundup. A estratégia consiste em vender simultaneamente o agrotóxico e sementes adaptadas ao produto.
Pesquisadores alertam que esse modelo pode ampliar a dependência de químicos agrícolas e acelerar o surgimento de novas resistências nas plantações.
Enquanto aguarda as liberações finais no Brasil, a Bayer também busca aprovações para o icafolin em outros países. A empresa afirma que o produto possui perfil de “risco reduzido”, embora especialistas defendam mais estudos independentes antes da liberação em larga escala.