Uma das maiores afrontas à moralidade administrativa não se desenha no calar da noite, mas sim à luz do dia, registrada em cartórios e juntas comerciais. No Município de Lagoa do Piauí, as fronteiras entre o interesse público e a expansão empresarial privada parecem ter se dissipado completamente sob a gestão da prefeita Camila Barbosa. Novos e estarrecedores fatos descobertos, trazem à tona um emaranhado de CNPJs que colocam a prefeita e a sua Secretária Municipal de Assistência Social, Jéssica Lima e Silva Soares Xavier, no centro de um ecossistema corporativo suspeito, operado em pleno exercício de seus mandatos.
Se já era faticamente inexplicável como uma Secretária Municipal, com jornada legal de 40 horas semanais a 40 quilômetros de distância da capital, conseguia tempo para atuar como cirurgiã-dentista e gerir clínicas em Teresina, a resposta agora assume contornos de escândalo: o apadrinhamento e o compadrio empresarial direto com a Prefeita Camila.
Um cruzamento de dados oficiais das bases de CNPJ revela uma impressionante e ágil movimentação comercial de ambas as gestoras precisamente após assumirem o poder municipal em 1 de janeiro de 2025.
TRÊS EMPRESAS, UMA ADMINISTRADORA
A Secretária Jéssica Xavier figura, hoje, como Sócia-Administradora de pelo menos três empresas ativas, cuja evolução cronológica e coincidências estruturais levantam dúvidas severas sobre o exercício concomitante de função pública.
As coincidências não param nas datas de fundação. As duas empresas criadas no segundo semestre de 2025 têm apenas dois dias de diferença e compartilham o exato mesmo e-mail de contato cadastrado perante a Receita Federal (p********@contadgestaocontabil.com.br) e o mesmo número de telefone comercial (86) 2222-****.
O MILAGRE DA UBIQUIDADE
Diante de um cenário onde o funcionalismo público se mistura de forma tão íntima com o empreendedorismo privado de alto padrão, restam perguntas que as gestoras precisam responder à sociedade e aos órgãos de controle.
Como uma Secretária Municipal de Assistência Social, pasta que exige dedicação total no atendimento a famílias em extrema vulnerabilidade, consegue administrar três empresas privadas simultaneamente e ainda cumprir uma jornada física de 40 horas semanais em Lagoa do Piauí?
Qual é a mágica de gestão que permite à Prefeita Camila Barbosa e à sua Secretária Jéssica Xavier encontrarem tempo, foco e energia, em pleno exercício de mandatos eletivos e de confiança, para arquitetar, abrir e estruturar duas novas empresas num intervalo de apenas 48 horas, entre 9 e 11 de setembro de 2025?
O ARCABOUÇO LEGAL
O arcabouço jurídico que sustenta a moralidade administrativa não deixa margem para ambiguidades. O Artigo 37, caput, da Constituição Federal impõe os princípios da eficiência, da moralidade e da impessoalidade como guias obrigatórios de qualquer gestor público.
Já a Lei Federal n. 8.112/1990, em seu Artigo 117, inciso X, é taxativo ao estabelecer as proibições aos agentes públicos: é expressamente vedado participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não personificada, ou exercer o comércio. A lei abre apenas uma única e clara exceção: a participação do agente na condição de acionista, cotista ou comanditário.
Ao figurar formalmente como Sócia-Administradora de três CNPJs distintos, a Secretária Municipal ignora deliberadamente essa barreira ética e legal. Da mesma forma, a Prefeita, ao aceitar o pacto societário em uma dessas empresas, chancela a ilegalidade dentro de seu próprio gabinete.
O MINISTÉRIO PÚBLICO JÁ INVESTIGA
Essa história ganhou um capítulo oficial no âmbito do Ministério Público. Conforme revela o andamento do processo extraído do Sistema Integrado do Ministério Público (SIMP), a situação resultou na abertura da Notícia de Fato n. 17/2026 perante a 1ª Promotoria de Justiça de Demerval Lobão, que possui atribuição sobre a região.
O procedimento investiga formalmente atos tipificados como Improbidade Administrativa e Dano ao Erário, confirmando que o Ministério Público Estadual já enxerga indícios de irregularidade na situação.
O cerco começou a se fechar em março de 2026, quando a Promotora Flávia Gomes Cordeiro determinou a expedição de duas notificações cruciais. O Ofício n. 236/2026 foi direcionado especificamente à Secretária Jéssica Lima e Silva Soares Xavier. O Ofício n. 237/2026 foi enviado diretamente à Prefeita Camila Barbosa, solicitando esclarecimentos formais sobre o nebuloso cenário que mistura o controle de ponto público com a administração de empresa privada.
E AINDA TEM MAIS…
A situação da prefeita Camila Barbosa ganha contornos ainda mais alarmantes quando confrontada com as recentes revelações sobre um suposto esquema de licitações viciadas e homologações relâmpago no Piauí, operadas por meio de editais copiados e cláusulas restritivas para direcionar cifras millionárias de limpeza pública a uma empresa recém-criada.
Esse esquema resultou na suspensão, pelo TCE-PI, de um contrato no Município de José de Freitas. Diante desse contexto, como o cidadão de Lagoa do Piauí pode ter certeza de que a prefeitura comandada por Camila Barbosa está imune a esse modus operandi de desvio de finalidade, se a própria chefe do Executivo é sócia de sua secretária na iniciativa privada?
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI) e o Ministério Público de Contas precisam avançar sobre essa conexão empresarial, onde o interesse privado de uma prefeita e de sua secretária se funde de forma tão íntima ao exercício de mandatos públicos.