O governo brasileiro, pesquisadores e órgãos de Justiça intensificaram ações para recuperar fósseis de dinossauros e outros patrimônios naturais levados ilegalmente do país e hoje espalhados por ao menos 14 nações. As negociações envolvem peças consideradas estratégicas para a ciência brasileira e reacendem o debate sobre o chamado “colonialismo científico”.
Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que existem pelo menos 20 processos de restituição em andamento. Os Estados Unidos lideram o número de pedidos de devolução, seguidos por Alemanha, Reino Unido e Itália.
Entre os casos mais emblemáticos está o do dinossauro Irritator challengeri, retirado ilegalmente do Ceará nos anos 1990 e mantido desde então em um museu alemão. Um acordo firmado recentemente entre Brasil e Alemanha prevê a devolução do fóssil ao sertão do Araripe, região considerada uma das áreas paleontológicas mais importantes do mundo.
Outro símbolo desse movimento foi o retorno, em 2023, do fóssil do Ubirajara jubatus, levado para a Alemanha por pesquisadores estrangeiros e devolvido após pressão diplomática e mobilização pública nas redes sociais. O exemplar passou a integrar o acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens.
A região da Bacia do Araripe, onde os fósseis foram encontrados, abrange municípios do Ceará, Pernambuco e também do Piauí, estado que integra o território reconhecido pela riqueza geológica e pelo potencial científico ligado ao período Cretáceo.
Pesquisadores afirmam que a saída ilegal desses materiais compromete diretamente o desenvolvimento científico nacional. Sem acesso aos fósseis, universidades e museus brasileiros perdem espaço em pesquisas internacionais, publicações acadêmicas e descobertas de grande impacto.
Estudos recentes apontam que quase metade das pesquisas sobre fósseis da Bacia do Araripe foi produzida exclusivamente por cientistas estrangeiros, muitas vezes sem participação de pesquisadores brasileiros. Outro levantamento identificou que 88% dos macrofósseis analisados em publicações internacionais entre 1990 e 2020 permanecem fora do país.
Especialistas defendem que a repatriação ajuda a romper uma relação histórica de desigualdade entre instituições científicas de países ricos e nações que tiveram seus patrimônios explorados ao longo de décadas.
Além do impacto acadêmico, o retorno dos fósseis também fortalece museus regionais e impulsiona o turismo científico. Segundo pesquisadores da Universidade Regional do Cariri, a devolução do Ubirajara aumentou o número de visitantes e despertou maior interesse de crianças e jovens pela paleontologia.
Reconhecida pela Unesco como geoparque mundial desde 2006, a Bacia do Araripe também foi incluída na lista de candidatas a patrimônio mundial da humanidade.