Houve um tempo em que caminhar pelo centro de Teresina era quase um ritual afetivo. As calçadas respiravam movimento, as praças guardavam conversas demoradas e as árvores pareciam abraçar a cidade com uma dignidade silenciosa. O calor existia, claro, mas havia sombra. Havia pertencimento. Havia cheiro de vida.
Teresina carregava com orgulho o título de Cidade Verde. E não era apenas um slogan turístico. Era uma realidade concreta. Bastava olhar os quintais antigos, os canteiros largos, as fontes luminosas, mangueiras espalhadas pelas ruas e o cuidado que existia com os espaços públicos. O centro possuía alma. As vitrines brilhavam, os bancos das praças acolhiam histórias e o povo ainda caminhava sem a pressa sufocante de hoje.
Mas algo foi se perdendo no caminho.
O centro da cidade, que já foi símbolo de elegância popular, pulsava e existia convivência urbana, hoje parece cansado. A sujeira ocupa espaços antes marcados pela beleza simples. A desorganização visual engole a memória arquitetônica. Muitas fachadas envelheceram sem cuidado, enquanto parte da população aprendeu a passar por ali sem mais olhar para cima. Como se a cidade tivesse deixado de conversar com seus próprios habitantes.
As árvores diminuíram. A verticalização dos prédios tocando o azul do céu ampliaram. O calor ficou mais agressivo. E, junto com isso, desapareceu parte da identidade afetiva de Teresina.
E cá pra nós, talvez o maior problema não seja apenas urbanístico. Existe também um abandono afetivo. Uma cidade começa a morrer quando as pessoas deixam de sentir orgulho dela. Quando a memória coletiva vai sendo substituída pelo improviso, pela indiferença e pela ideia perigosa de que deterioração é algo normal. Ela se desnuda lacivamente num breve espaço de tempo.
Ainda assim, Teresina resiste.
Resiste no café quente servido por dona Maria, no Mercado da Vermelha, entre o cheiro de cuscuz de milho verde recém-feito e as conversas simples das primeiras horas da manhã. Resiste no sorriso do menino vendedor de cocadas, equilibrando esperança entre carros e olhares apressados. Resiste nas mãos calejadas dos feirantes, no sotaque arrastado das esquinas e na teimosia incisiva de quem ainda acredita na cidade.
Nenhuma cidade perde totalmente sua essência. Ela apenas adormece debaixo das camadas de descuido.
Talvez ainda exista tempo para reencontrar a Cidade Verde que um dia encantou seus filhos. Não apenas plantando árvores, mas reconstruindo pertencimento, cuidado e memória. Porque uma cidade não vive somente de avenidas e prédios. Vive também do afeto que consegue preservar.
E Teresina, apesar de ferida, ainda pulsa.
Do poeta do fim do mundo:
Marcio Felipe