Praça João Luís Ferreira vive abandono e medo

Comerciantes denunciam insegurança e degradação

No centro de Teresina, onde o fluxo diário mistura comércio popular, transporte coletivo e passos apressados, a Praça João Luís

Ferreira ainda se mantém como um dos espaços mais antigos da dinâmica urbana da capital. Entre estruturas desgastadas e circulação constante de trabalhadores, o lugar guarda vestígios de um tempo em que o centro reunia maior vitalidade econômica e social.

Foto: Marcio Felipe
Insegurança e degradação na Praça João Luiz

Hoje, o cenário é outro.

A praça apresenta sinais visíveis de desgaste: lixo em alguns pontos, vegetação sem manutenção, iluminação fraca e áreas que ficam completamente escuras à noite. Em determinados trechos, o odor de urina e fezes humanas revela a falta de limpeza contínua. O espaço, que já foi referência de convivência e comércio intenso, passou a ser atravessado com pressa.

O impacto atinge diretamente quem trabalha ali.

Zeneide Maria Oliveira de Almeida, que atua como comerciante há três anos na região, resume a situação da segurança de forma direta:

“Péssimo, não tem segurança.”

Para ela, a ausência de policiamento constante amplia a sensação de vulnerabilidade entre comerciantes e frequentadores.

“Na minha opinião, eu acho que cada praça deveria ter aqueles pontos policiais para eles passarem o dia todo. Porque aí quem trabalha aqui, até quem passa por aqui, se sentiria mais segura.”

Foto: Marcio Felipe
Zenaide Maria Oliveira, comerciante, atua há três anos na Praça João Luís Ferreira, no centro de Teresina (PI).

A fala reflete uma demanda recorrente no centro de Teresina: presença contínua do poder público no espaço urbano, especialmente em áreas históricas.

Zeneide também descreve o estado físico da praça:

“Tá bem abandonada. Se você observar, é lixo, é mato, é escuro, não tem iluminação.”

O relato acompanha a paisagem observada no local, onde a falta de manutenção reforça a sensação de abandono.

Outro trabalhador ouvido pela reportagem foi Rafael Carvalho dos Santos, de 36 anos, vendedor de guaraná da Amazônia e atuante há 17 anos na praça. Ele afirma que o período noturno concentra os maiores problemas.

 “Na verdade, aqui o que mais tem é ‘noiado’ nessa praça à noite.”

A expressão utilizada pelo entrevistado se refere a pessoas em situação de dependência química que permanecem no local, evidenciando a presença de vulnerabilidade social no centro da cidade.

Segundo Rafael, a insegurança afeta diretamente o trabalho.

 “Nada de seguro. Em termos de segurança aqui tá zero.”

Foto: Marcio Felipe
Raphael Carvalho dos Santos, 36 anos, comerciante da Praça João Luís Ferreira, atua há 17 anos no local e relata já ter presenciado diferentes situações ao longo do tempo, incluindo dois assaltos e episódios de ameaças envolvendo pessoas em situação de dependência química.

Ele também relata situações de pressão sofridas por comerciantes por parte de usuários de drogas, chamados por ele de “noiados”.

“Eles querem que a gente dê dinheiro pra eles, e às vezes a gente não tem condição de estar sustentando esses ‘noiados’ pra usar droga, e eles ameaçam.”

O depoimento revela um cotidiano marcado por tensão constante e dificuldades para manter a atividade comercial na região.

Rafael ainda observa um processo contínuo de fechamento de estabelecimentos.

"Cada dia que se passa fecha um ponto comercial.”

A frase traduz a redução do movimento econômico no centro histórico da capital.

Esse processo atinge diretamente um dos símbolos mais antigos da praça: a tradicional Banca de Revista “O Tomaz”, conduzida por Tomaz Rocha. Com mais de 60 anos de atuação na Praça João Luís Ferreira, a banca é hoje uma das últimas remanescentes de um modelo de comércio que já foi dominante no centro de Teresina.

Foto: Marcio Felipe
Banca do Tomaz

Em meio às transformações econômicas e tecnológicas, o setor de jornais e revistas impressas perdeu espaço para o consumo digital. A mudança de hábitos reduziu drasticamente a procura por exemplares físicos, impactando diretamente os jornaleiros da capital.

A banca de Tomaz Rocha resistiu ao tempo e às mudanças que levaram ao fechamento de diversas outras bancas no centro. Hoje, ela se destaca como uma das poucas que ainda permanecem ativas na cidade, atravessando décadas de transformações urbanas, econômicas e tecnológicas.

A Praça João Luís Ferreira, por sua vez, segue o mesmo ritmo de transição do centro de Teresina: menos movimento, mais silêncio em determinados horários e uma sensação crescente de esvaziamento.

Ainda assim, a presença de trabalhadores mantém o espaço ativo.

Entre bancas que resistem, comerciantes que insistem e trabalhadores que seguem abrindo suas atividades todos os dias, a praça continua funcionando como pode.

Mas com marcas cada vez mais visíveis do tempo.

E da falta de cuidado contínuo com o centro histórico da cidade.

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